Monday, April 9, 2007

Fim de Partida






...Não estaríamos na hora de significar alguma coisa...Se uma inteligência regressasse a terra...Não estaria tentada a formular idéias a custa de nos observar...Até mesmo nós...Nós por momentos...E pensar que tudo isto talvez não tenha servido para nada...”

Nosso projecto




Dados candidato


Entidade Edward Charles Rodrigues Fão


nome artístico Edward Fão


NIF 222501731


Data nascimento 28.02.64


Morada Av François Miterrand 737 loja 43B


Codigo Postal 1950-354


Telefone 964751511


E-mail edwardfao@hotmail,com


Site www.fimdepartida.blogspot.com



Identificação candidatura


Área artística Teatro


Nome candidatura Fim de partida


Descrição sumária da candidatura O projeto Fim de partida, consiste na circulação de uma estrutura artística pelo universo universitario de 10 faculdades de lisboa (faculdade de Belas Artes, faculdade de Letras, faculdade de Psicologia, faculdade de Arquitectura, Iscte, faculdade de Ciências, faculdade de Direito, faculdade de Medicina, ISTE, faculdade de Biologia) , transportando no seu universo criativo, 01 espetáculo aberto à população académica em geral. Em cada faculdade será realizada 5 apresentações da representação de Fim de partida deus, dramaturgia, concepção e encenação de Edward Fão a partir de End game de Samuel Beckett. Para assegurar a sua identidade criativa, o espaço é dotado de equipamento básico de iluminação, som e imagem, proporcionando-lhe a autonômia necessária para sua concretização. A estrutura arquitetônica que sustentará o alicerce físico do espaço, é constituída por tubos de aço inox de 1 polegada, tendo como cobertura lona plástica impermeável, comportando em seu interior um espaço cênico com uma área de representação de 20 metros quadrados e plateia com capacidade para até 40 lugares. Toda essa estrutura, que com a sua leveza carrega o peso dos acontecimentos, não pesa mais (toda ela, com seus tubos, braçadeira, coberturas, equipamento de som e luz, figurino, cenografia) do que 200 quilos, sendo desmontável e transportável em 04 grandes baús medindo 2,5 mts x 1mt x 1mt, e facilmente manipulável para o fim que se destina. Os bilhetes estarão a disposição do público universitário nas dependências das associações universitárias. Para assegurar uma razoável divulgação, cada faculdade visitada terá a seu dispor 50 cartazes A2, 500 programas e mil flayers


Dimensões 15 mts por 15 mts com 2,5 metros de altura


Espaço representação mínimo 20 mts quadrados máximo 125 mts quadrados


Nº de lugares 40 cadeiras dobráveis


cabine de som e luz com 3 mts quadrados


Equipamento luz 01 mesa 12 canais 02 hacks 06 canais 15 projetores


Equipamento som 01 mesa 06 canais 01 leitor MD 01 leitor CD 04 colunas 100 watts


Equipamento imagem 01 câmera vídeo digital 01 projetor vídeo 01 telão projeção


Bastidores 01 camarim 8 mts quadrados corredor


Arquitetura cênica tapadeiras bambolinas varas teia


Material estrutura varas de aço inoxidável com 1 polegadas de diâmetro


Site divulgação da candidatura www.teatrokaosescola.blogspot.com



Objectivos Artísticos


  • Antes de mais nada poder criar com o acreditar dos idiotas, com a esperança de que o nosso trabalho árduo possa interferir no quotidiano do nosso próximo, contribuindo para que possamos, num futuro não utopicamente distante, mirar no olhos do nosso igual com a verdade dos nossos dos nossos corações infantis, esquecidos na nossa memória vazia,

  • Apresentar uma dramaturgia original na sua autoria e contemporânea na sua linguagem formal e estética,

  • Levar, através do objecto artístico, a musicalidade da nossa linguagem tentando transpassar através da arte a incomunicabilidade que nos separa,

  • Realizar 50 apresentações em 10 Faculdades da Universidade de Lisboa, levando a nossa criação para um universo de 2.000 universitários,

  • Fomentar a possibilidade do construir e destruir mentalidades que nos arrasam a todos

  • Gerar pontes, obejctivando a aproximação da nossa estrutura artística ao espaço académico, através da criação e da solidificação de novos públicos, e de parcerias com as associações académicas.


Metodologias


  • Levantamento dos espaços disponíveis nas Faculdades da Universidade de Lisboa, com possibilidades em receber a estrutura cénica construída para acolher o projecto,

  • Contactar reitoria ( extensão-assuntos culturais) da Universidade de Lisboa para apresentação do projecto com o objectivo em solicitar o apoio na apresentação do projecto aos conselhos directivos da faculdades da Universidade de Lisboa,

  • Contactar direcção das Associações de Estudantes da Universidade de Lisboa para apresentação do projecto com o objectivo em solicitar apoio para a divulgação, distribuição de bilhetes: e apoio instuticional junto ao conselho directivo, no pedido de cedência de espaço para realização da representação,

  • Enviar pedido Câmara Municipal de Lisboa solicitando apoio para confecção material divulgação,

  • Enviar pedido Câmara Municipal Lisboa solicitando transporte para a deslocação dos materiais da arquitectura cénica e da cenografia, de e para os espaços da Faculdades,

  • Enviar ofício conselhos directivos das Faculdades da Universidade de Lisboa apresentando o projecto e solicitando espaço para realização do projecto,

  • Confirmação dos apoios solicitados,

  • Marcações de datas da apresentações,

  • Envio meios de material informativo para os meios de comunicação (jornais, revistas, rádios, agendas culturais, televisões), objectivando a marcação de entrevistas e apoio publicitàrios,

  • Construção do espaço arquitetónico,

  • Construção da cenografia e figurinos,

  • Criação da encenação através do método das Partituras e Dramaturgias do actor e de jogos lúdicos,

  • Preparação corporal e vocal,

  • Construção da representação,

  • Ensaios,

  • Concepção e criação da banda sonora e desenho de luz,

  • Envio material de divulgação à associações de estudantes,

  • Confirmação (in loco) do plano de divulgação nas faculdades,

  • Ensaios abertos para dirigentes das associações, conselhos directivos e imprensa.


Contextualização



Portugal é um País tão pequeno, mas imensuravelmente infinito nas suas fronteiras culturais internas, o teatro que achamos representar a realidade criativa Portuguesa, não está, como pensa uma boa parte dos criadores Portugueses, sediado nos umbigos que esta terra carrega, como também a totalidade do publico que encerra o circulo da criação, não está fincada nos territórios privilegiados Lusitanos. Há outra realidade, distante dos olhares criativos dos produtores que pensam determinar a linguagem e a estética do fazer teatral Português.

As grandes Cias (que produzem seus clássicos, sejam eles modernos museológicos ou ainda os contemporâneos massificados pela idéia do mundo globalizado), estão enraizadas, literalmente falando, em seus territórios, garantindo a sua subsistência, com simpáticos subsídios governamentais, numa posição cômoda perante a necessidade cultural de uma geração.

Algumas pequenas Cias ou criadores Pontuais, que percebem a necessidade que o seu fazer artístico pode representar, e que entendem o seu labutar, não como uma simples representação do seu ego ferido (mas como elemento essencial para o desenvolvimento da nossa humanidade bestificada), acabam por realizar produções que morrem antes mesmo de ganharem vida. Pode-se contar nos dedos os criadores pontuais que insistem em apresentar suas representações mais do que uma dezena de vezes, na maioria dos casos limitam seu trabalho à recepção dos amigos e da impressa nepotista, que elege beldades e esquece seu papel fundamental na construção da política cultural de uma nação.

É claro que a culpa não pode recair somente em cima dos criadores incautos, sejam eles pontuais ou os enraizados nas suas convicções pessoais. Os senhores que determinam a política cultural estabelecida, tem grande culpa no processo, é essa política que cria a possibilidade do estado de efemeridade, que se presencia no universo criativo nacional. São eles que elegem as Cias, os projetos e as produções que são oferecidas aos espectadores distraídos.

Há em primeiro lugar um círculo vicioso que circunda quase sempre as mesmas entidades, criando uma relação quase paternalista, fazendo com que a linguagem teatral permaneça estagnada nos conceitos da mentalidade do século passado ou fazendo com que projetos importantes para transformação necessária da mentalidade vigente, sejam tratados com descaso e ligeireza contribuindo para que o efêmero acontecimento teatral, torne-se ainda mais efêmero, permitindo e quase determinando a curta duração de um projeto. Enclausurando os criadores debaixo de seus olhares vivos, limitando a possibilidade dos olhares anônimos, e que estão a milhas do seu feudo cultural.

Mas enquanto a política se mantiver, ou enquanto a mentalidade e determinação dos criadores se prostrar de joelhos perante o sistema presente, continuaremos a ser o Portugal dos pequeninos, guardados por mentes vazias de idéais e destituídos de responsabilidade perante o construir de uma necessária mudança.

Identificação equipe


Responsável artístico Edward Fão


Responsável gestão Edward Fão


Actores Tiago Barbosa (homem a beira da morte)

Mia Farr (enfermeiro)



Produção executiva Pedro Sousa


Designer gráfico Tania Reis


Desenho de luz Pedro Sousa


Banda sonora Edward Fão


Cenografia/figurino Edward Fão


Contra regra Helena Ortigão



Descrição instalações


O espaço é efémero e móvel, criado para possibilitar o transporte do universo ficcional com facilidade e dinámica, possibilitando que a representação se apresente em qualquer sítio sem perder as características que moldaram a sua génese criactiva, fazendo com que se mantenha as condições necessárias para a concretização do acontecimento.

A estrutura arquitetônica que sustentará o alicerce físico do espaço, é constituída por tubos de aço inox de 1 polegada, tendo como cobertura lona plástica impermeável, comportando em seu interior um espaço cênico com uma área de representação de 20 metros quadrados e plateia com capacidade para até 40 lugares. Toda essa estrutura, que com a sua leveza carrega o peso dos acontecimentos, não pesa mais (toda ela, com seus tubos, braçadeira, coberturas, equipamento de som e luz, figurino, cenografia) do que 100 quilos, sendo desmontável e transportável em 04 grandes baús medindo 2,5 mts x 1mt x 1mt, e facilmente manipulável para o fim que se destina.


planta baixa


dimensões 15 mts por 15 mts com 2,5 metros de altura

espaço representação mínimo 20 mts quadrados máximo 125 mts quadrados

nº de lugares 40 cadeiras dobráveis

cabine de som e luz com 3 mts quadrados

equipamento luz 01 mesa 12 canais 02 hacks 06 canais 15 projetores

equipamento som 01 mesa 06 canais 01 leitor MD 01 leitor CD 04 colunas 100 watts

equipamento imagem 01 câmera vídeo digital 01 projetor vídeo 01 telão projeção

bastidores 01 camarim 8 mts quadrados corredor

arquitetura cênica tapadeiras bambolinas varas teia

material estrutura varas de aço inoxidável com 1 polegadas de diâmetro



Plano comunicação


- Distribuição e afixação de 50 cartazes em cada faculdade num total de 500 cartazes A2

- distribuição de 2.000 programas nas apresentações do espectáculo

- envio de 1.000 programas para entidades culturais, autarquia, meios de comunicação, teatros públicos e privados totalizando 3000 programas

- distribuição de flayers nas cantinas, bares, associações de estudantes das faculdades da Universidade de Lisboa totalizando 5000 flayers

- divulgação evento em site na internet

- divulgação evento mailing

- entrevistas meios de comunicação

- envio convite rádios



Identificação público


- público do universo universitário das faculdades da Universidade de Lisboa

- Captação público através da divulgação do evento directamente no espaço académico, através de cartazes, panfletos e programas, com incursões in loto antes e durante as apresentações


Calendarização


maio/junho/julho pré-produção

contacto faculdades pedido espaço para apresentação

confecção material divulgação

contacto associações estudantes apoios à divulgação


julho agosto

criação encenação

ensaio

construção/criação espaço cénico

construção/criação cenografia

construção/criação figurinos

construção/criação banda sonora

construção/criação desenho de luz


setembro/outubro/novembro 50 apresentações

faculdade de Belas Artes – 2º semana de setembro – 5 apresentações

faculdade de Letras – 3º semana de setembro – 5 apresentações

faculdade de Psicologia – 4º semana de setembro – 5 apresentações

faculdade de Arquitectura – 1º semana de outubro – 5 apresentações

Iscte – 2º semana de outubro – 5 apresentações

faculdade de Ciências – 3º semana de outubro – 5 apresentações

faculdade de Direito – 4º semana de outubro – 5 apresentações

faculdade de Medicina – 1º semana de novembro – 5 apresentações

ISTE – 2º semana de novembro – 5 apresentações

faculdade de Biologia – 3º semana de novembro – 5 apresentações


Previsão orçamento e despesas


Espaço Cénico


120 tubos aluminio ½ polegada, 2,50 comprimento

120 mts lona plástica preta

120 conjuntos porca/parafuso/arruela

200 mts cabo aço plastificado


Cenografia

        • 85 mts tubo plástico transparente

        • 20 cadeiras desdobráveis

        • 24 mts tecido branco

        • 10 mts veludo vermelho

        • 01 tv color

        • 01 câmera filmar

        • 08 garrafas

        • 02 peixinhos dourados

        • 01 aquário

Objectos de cena

        • 01 cadeira desdobrável

        • 01 mesa desdobrável


Adereços

        • 01 calendário

        • 01 bote adoçante

        • 01 caneta

        • 01 rolo senha

Figurinos

        • 40 aventais médico descartáveis

        • 40 máscaras descartáveis

        • 01 máscara cirúrgica

        • 01 toca cirúrgica


Caracterização

        • 10 potes maquiagem branca

        • 02 potes maquiagem vermelha

        • 02 potes maquiagem preta

        • pincéis


outros matériais

        • 02 litros éter


Divulgação

        • 500 cartazes A2

        • 200 programas

        • 5000 flayers


Despesas


direcção

gestor € 4.000,00

produtor € 2.100,00


criactivos

Encenador € 3.000,00

actores x 2 x 1.000 € 10.000,00

cenografo/figurinista € 500,00


tecnicos

Técnicos de som € 2.100,00

técnico luz € 2.100,00

contra-regra € 2.100,00


espaço

Espaço cénico € 840,00

equipamento luz/som € 1.500,00


montagem

Cenografia € 900,00

Objectos de cena € 30,00

Adereços € 20,00

Figurinos € 220,00

Caracterização € 90,00

outros materiais € 50,00


divulgação

cartaz/programa/panfletos € 2.350,00

designer € 500,00


outros gastos

transporte € 1.000,00


total despesas € 33.400,00


Receitas


próprias

venda espectáculos € 10.000,00

venda programas/postais € 500.00


apoio autarquia

apoio camara transporte/divulgação € 3.350,00


total receitas € 13.850,00



pedido IARTES € 20.550,00

total despesas € 33.400,00

total receitas

Friday, April 6, 2007

Magma da vida




FIM DE PARTIDA

PROCESSO DE CRIAÇÃO




MAGMA (LODO DA VIDA)


O DRAMA (AÇÀO) SURGE ANTES DA DRAMATURGIA, A IMAGEM DE UM HOMEM A BEIRA DA MORTE NUMA SALA HOSPITALAR DE TRATAMENTO INTENSIVO (U.T.I.), ASSISTIDO POR ESPECTADORES/MÉDICOS (RESPONSÁVEIS EM EVITAR QUE ELE DEIXE DE SOFRER FÍSICA E EXISTENCIALMENTE), FOI O PONTO DE PARTIDA PARA A CRIAÇÃO DA PEÇA FIM DE PARTIDA.

PARA QUE O DRAMA (AÇÃO) PUDESSE LIBERTAR SEU PESO SIGNIFICATIVO, ATRAVESSAR O ESPAÇO E COMUNICAR COM O ESPECTADOR DISTRAÍDO (MOSTRANDO O PROFUNDO SIGNIFICADO DO SEU DRAMA), ERA NECESSÁRIO ALGUM ELEMENTO LITERÁRIO DRAMÁTICO, QUE PUDESSE FUNDIR-SE COM A IMAGEM DO TEXTO CÊNICO DO PEQUENO DRAMA, E A PARTIR DAÍ CONSTRUIR-SE-IA UMA DRAMATURGIA ORIGINAL PARA ESSA HIPOTÉTICA CRIAÇÃO.

REMEXENDO A MEMÓRIA, DOIS AUTORES ERAM ALVO DE INTERESSE: FERNANDO ARRABAL E SAMUEL BECKETT. AMBOS TÊM UMA MANEIRA LÚDICA EM ESTRUTURAR SUAS CRIAÇÕES, SEUS MUNDOS ONÍRICOS POSSUEM UM CERTO CHAMAMENTO À IMORTALIDADE.

TO PONTO DE PARTIDA

ENTRE MUITAS POSSIBILIDADES, A SORTE ENCARREGOU-SE DA ESCOLHA FINAL: FIM DE PARTIDA DE BECKETT (TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS PARA O CASTELHANO POR ANA MARIA MOIX, MARGINALES, 29 EDIÇÃO 1997, TUSQUETS EDITORES, BARCELONA), MOSTROU-SE DUPLAMENTE PROMISSOR: SE POR UM LADO TEM UMA FÁBULA DE ENCLAUSURAMENTO, DE NECESSIDADE DO OUTRO, DO VAZIO EXISTENCIAL; POR OUTRO LADO TEM UMA POÉTICA LITERÁRIA LIBERTADORA, PROFUNDA, SIMPLES E BELA.

A IMOBILIDADE EM FIM DE PARTIDA INVADE A CENA ASSIM QUE A PEÇA COMEÇA. DOS 04 PERSONAGENS, 03 ESTÃO PARALISADOS E O 4° MOVE-SE COM DIFICULDADE, AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ABERTAMENTE HOSTIS E ESTÃO A UM PASSO DA EXTINÇÃO, HÁ UMA SITUAÇÃO OPRESSIVA DE MÚTUA DEPENDÊNCIA.

O TEMA PRINCIPAL DESSA PEÇA É A IMPOSSIBILIDADE DE ACABAR, PERSONAGENS OU OBJETOS ESTÃO NO FIM OU QUASE NO FIM, OS PERSONAGENS REALIZAM UMA SERIE DE MOVIMENTOS INÚTEIS ENCAMINHADOS PARA UM FIM QUE CONSTANTEMENTE É ADIADO.

DA FÁBULA DE BECKETT O QUE INTERESSAVA ERA O TOM ATMOSFÉRICO DO ESPAÇO FECHADO VAZIO E PESADO, QUE ENQUADRAVA-SE PERFEITAMENTE NO CONTEXTO DO HOMEM A BEIRA DA MORTE, SEM SAÍDA, SEM VONTADE EM DETERMINAR SUA TRAJETÓRIA, AINDA DEPENDENTE DA CORAGEM DO OUTRO. DO PRÓXIMO.

D0 SEU TEXTO LITERÁRIO, DEFINIU-SE SELECIONAR DENTRE A TOTALIDADE DAS FALAS DE TODOS OS SEUS PERSONAGENS, O QUE REALMENTE PARECESSE VITAL PARA O ENTENDIMENTO DO TEMA PROPOSTO CONSTRUÍDO POR BECKETT (NÃO QUE ISSO FOSSE SAGRADO. MAS A PROFUNDIDADE PROPOSTA POR ELE PARA O RECONHECIMENTO DO VAZIO HUMANO, NÃO PODIA SER FACILMENTE IGNORADA), E A PARTIR DESSA ETAPA COMEÇAR-SE-IA A CONSTRUIR A CRIAÇÃO DA DRAMATURGIA DESSE OUTRO FIM DE PARTIDA, JÁ NÃO MAIS DE BECKETT.


T1 TRADUÇÃO CASTELHANO PARA O PORTUGUÊS


TRADUZIR E READEQUAR O TEXTO CASTELHANO AO CONTEXTO TEMPORAL E ESPACIAL PRESENTE, FOI O PRIMEIRO GRANDE DESAFIO. TRABALHO QUE EXIGIU MUITA PACIÊNCIA E ALGUMA DIFICULDADE PARA CONOTAR DETERMINADAS IDÉIAS, MESMO COM A PROXIMIDADE DA LÍNGUA.

PARA FACILITAR O PROCESSO SELETIVO, RESOLVEU-SE APAGAR DO TEXTO ORIGINAL TODAS AS DIDASCÁLIAS, INDICAÇÕES CÊNICAS, RUBRICAS E A IDENTIFICAÇÃO NAS FALAS DOS PERSONAGENS, QUE AGORA ERAM ELEMENTOS DISPENSÁVEIS, NÃO ERAM O ALVO DA SELEÇÃO.

O QUE IMPORTAVA NESSE MOMENTO DO PROCESSO ERA O CONSTRUIR UM LONGO MONÓLOGO SEM DESTINATÁRIO, PLAUSÍVEL DE UMA OUTRA LEITURA, DESLIGADO DA SUA DRAMATURGIA ORIGINAL E QUE FAVORECESSE UMA LIGAÇÃO SIMBIÓTICA E CONCRETA COM O DRAMA(AÇÃO) DO HOMEM A BEIRA DA MORTE NUMA SALA HOSPITA(LAR). A PARTIR DESSE TRABALHO CIRÚRGICO SURGIA A TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS.


T2 CRIAÇÃO/SELEÇÃO LITERÁRIA E DRAMATÚRGICA


COM O TEXTO FILTRADO NA SUA ESTRUTURA DRAMÁTICA ORIGINAL, AGORA COM VARIADAS POSSIBILIDADES DE LEITURA, JÁ SERIA POSSÍVEL ACRESCENTAR-LHE A FÁBULA JÁ ESTRUTURADA DESSE HOMEM A BEIRA DA MORTE E CONSTRUIR-SE UMA NOVA LEITURA PARA UMA NOVA FÁBULA.

LENDO E RELENDO O GRANDE MONÓLOGO, SELECIONOU-SE FALAS QUE TINHAM O PESO JUSTO E QUE POSSIBILITASSEM SEREM MANIPULADAS PARA ALÉM DO SEU CONTEXTO E DOS SEUS PERSONAGENS, GANHANDO AUTONOMIA E NOVOS SIGNIFICADOS QUANDO ENCAIXADAS NA ESTRUTURA DRAMATÚRGICA DO NOVO TEXTO CÊNICO.

ALÉM DA SELEÇÃO DAS FALAS DO TEXTO DE BECKETT, SE ACRESCENTOU A LISTA DAS FALAS DA CONSTRUÇÃO LITERÁRIA, TEXTO ORIGINAL, MATERIAL ESSE, QUE SERVIU COMO ALICERCE PARA A CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA DO DRAMA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE.

DEPOIS DE SELECIONADAS AS FALAS DO TEXTO ORIGINAL E ACRESCENTADAS FALAS E PALAVRAS EXTERIORES A PEÇA DE BECKETT, FORMOU-SE UM LONGO TEXTO LITERÁRIO COM CARACTERÍSTICAS POÉTICAS.

DAS 803 FALAS DOS PERSONAGENS QUE COMPÕEM O TEXTO DE BECKETT. FORAM EXTRAÍDAS 39 FALAS NA ÍNTEGRA OU PARTE DELAS, A ELAS ACRESCENTOU-SE MAIS 10 FALAS EXTERIORES AO TEXTO.

EM 17 DAS 39 FALAS SOMOU-SE OUTROS FRAGMENTOS QUE COMPLEMENTARAM AS FALAS DO TEXTO ORIGINAL, TOTALIZANDO 49 FALAS QUE DAQUI ADIANTE IRÃO SUSTENTAR A CONSTRUÇÃO CRIATIVA DA DRAMATURGIA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE, FINALIZANDO A CRIAÇÃO LITERÁRIA AO FINAL DO PROCESSO, COM 126 TEXTOS CÊNICOS, ALGUNS PERTENCENTES AOS PERSONAGENS, OUTROS INERENTES À ENCENAÇÃO.


T3 PROCESSO DE MONTAGEM

1ª ESTRUTURA DRAMATÚRGICA LITERÁRIA DE O FIM DE PARTIDA


DEPOIS DA SELEÇÃO REALIZADA, AS FALAS FORAM REORDENADAS E REAGRUPADAS EM 53 BLOCOS INDEPENDENTES QUE SERVIRIAM PARA TRAÇAR O 1º ROTEIRO FÍSICO E ESPACIAL DA REPRESENTAÇÃO. A SEGUIR FORAM ACRESCENTADAS AINDA ALGUMAS INDICAÇÕES CÉNICAS E ALGUMAS DIDASCÁLIAS QUE POSSIBILITASSEM ORIENTAR A CRIAÇÃO DO INTERPRETE DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. NESSA ETAPA DO PROCESSO TEMOS UM 1º ESBOÇO DA DRAMATURGIA, QUE DEVE SERVIR COMO REFERENCIAL PARA A CONSTRUÇÃO DA ENCENAÇÃO E DO TRABALHO CRIATIVO DO ATOR.

DURANTE O PROCESSO DE ENSAIOS O TEXTO APRESENTADO COMO REFERÊNCIA COMEÇA A TRANSMUTAR-SE SEGUINDO AS EXIGÊNCIAS QUE A CRIAÇÃO/REPRESENTAÇÃO NECESSITA. NESSA ETAPA NÃO CONTÁVAMOS COM ALGUNS ELEMENTOS ( ILUMINAÇÃO, CENOGRAFIA, SONOPLASTIA, VÍDEO, ESPAÇOS DA REPRESENTAÇÃO) QUE SÓ ENTRARIAM NA ENCENAÇÃO E NA DRAMATURGIA A PARTIR DA ESTRÉIA, TRANSFORMANDO RADICALMENTE A APARÊNCIA DRAMATÚRGICA INICIAL DO ACONTECIMENTO, QUE CONTINUARÁ TRANSMUTANDO-SE ATÉ A DERRADEIRA APRESENTAÇÃO DE O FIM DE PARTIDA, NUNCA SENDO A MESMA COISA A CADA NOVA NECESSIDADE QUE O ACONTECIMENTO APRESENTA.


T4 ESPETÁCULO VERSÃO CÉNICA DE O FIM DE PARTIDA


QUASE NO FINAL DO PROCESSO DE MONTAGEM. SURGIRAM ALGUNS PROBLEMAS RELATIVOS A CONCRETIZAÇÃO DE ALGUMAS IDÉIAS PROPOSTAS PELA ENCENAÇÃO, OUTROS SURGIRIAM JÁ NO DECORRER DAS APRESENTAÇÕES: UNS LOGO NO PRINCÍPIO, OUTROS A MEDIDA QUE O TEMPO AVANÇAVA NO ESPAÇO.

DE CARA, NA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO UM PROBLEMA SE FEZ PRESENTE: COMO CHEGARIA O PÚBLICO ATÉ A SALA DA REPRESENTAÇÃO JÁ VESTIDO? QUEM OS VESTIRIA E AONDE ESSE PROCESSO SE DARIA? E AINDA: ENQUANTO ESSE PROCESSO DECORRIA O QUE SERIA FEITO D0 PÚBLICO QUE AGUARDAVA PARA ENTRAR NA SALA DA REPRESENTAÇÃO?

A SOLUÇÃO IMEDIATA PARA ESSA 1º APRESENTAÇÃO FOI PEGAR UMA PESSOA QUE ESTAVA A MÃO, VESTIR-LHE UMA BATA E UMA MÁSCARA HOSPITALAR E DAR-LHE A FUNÇÃO DE VESTIR O PÚBLICO PRESENTE. JÁ PARA A 2ª APRESENTAÇÃO TENTAR-SE-IA EQUACIONAR ESSE PEQUENO, MAS INCONVENIENTE PROBLEMA.

COMO AS APRESENTAÇÕES DAVAM-SE UMA VEZ A CADA SEMANA. TINHA-SE UM CERTO TEMPO PARA SE PENSAR EM POSSIBILIDADES. A SOLUÇÃO ENCONTRADA FOI CONVIDAR UM OUTRO ATOR E INCUMBIR-LHE DESSA FUNÇÃO, CRIANDO PARA ELE UM PEQUENO ROTEIRO DE MOVIMENTAÇÃO QUE LHE PERMITISSE DAR FLUIDEZ AO PROCESSO DE ENCAMINHAMENTO DO PÚBLICO ATÉ A ÁREA DA REPRESENTAÇÃO.

MAS COMO SERIA UM DESPERDÍCIO UTILIZAR UM ATOR SOMENTE COMO GUIA, IGNORANDO SEU POTENCIAL CRIATIVO E INTERPRETATIVO, CRIOU-SE PARA ELE UM NOVO PERSONAGEM QUE GRADATIVAMENTE FOI-SE INCORPORANDO A FÁBULA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. PRIMEIRAMENTE UM PERSONAGEM QUE DESEMPENHASSE AS AÇÕES NECESSÁRIAS PARA A REALIZAÇÃO DA FUNÇÃO (CHAMAR O PÚBLICO, VESTI-LO, ENCAMINHÁ-LO A SALA DA REPRESENTAÇÃO E FILMAR O ACONTECIMENTO), QUE MAIS TARDE SERVIRAM DE SUSTENTAÇÃO PARA CRIAR A RELAÇÃO DESSE PERSONAGEM COM O HOMEM A BEIRA DA MORTE. ASSIM NASCIA O ENFERMEIRO; PERSONAGEM NÃO SOMENTE COM A FUNÇÃO DE MOVIMENTAR AS PESSOAS PELOS ESPAÇOS (QUE AGORA JÁ ERAM 04), MAS PRINCIPALMENTE EM CONFLITUALIZAR COM O HOMEM A BEIRA DA MORTE E COM O PÚBLICO; OPRIMI-LOS E ACIMA DE TUDO GARANTIR QUE OS SEUS SOFRIMENTOS NÃO CESSASSEM PELAS SUAS PRÓPRIAS VONTADES. DEU-SE A ESSE PERSONAGEM O PESO NECESSÁRIO PARA QUE A REPRESENTAÇÃO METAMORFOSEASSE O SEU OBJETIVO PRIMEIRO.

FORA ESSE PROBLEMA. QUE ERA O MAIS IMPORTANTE A SER RESOLVIDO, SURGIRAM OUTROS DE ORDEM TÉCNICA, MAS QUE DE ALGUMA MANEIRA INFLUENCIARAM DE MANEIRA POSITIVA O TEOR ARTÍSTICO DA CRIAÇÃO. ENQUANTO PERMANECEMOS COM APRESENTAÇÕES NO MESMO ESPAÇO FÍSICO, AS MODIFICAÇÕES ERAM RELATIVAS AO TEMPO, REGISTRO INTERPRETATIVO E OUTROS CONFRONTOS INERENTES A ENCENAÇÃO, A PARTIR DO MOMENTO QUE A REPRESENTAÇÃO SAIU DESSE ESPAÇO INDO APRESENTAR-SE EM OUTROS LOCAIS, SURGIRAM PROBLEMAS TÉCNICOS LIGADOS ESPECIFICAMENTE A ÁREA DA CENOGRAFIA E IMAGEM. UM DOS OBJETOS DE CENA (UMA LAJE MORTUÁRIA) CRIAVA DIFICULDADES PARA SUA DESLOCAÇÃO, SENDO DEFINITIVAMENTE EXTRAÍDO DA ENCENAÇÃO, PASSANDO O ATOR A FICAR DEITADO DIRETAMENTE NO CHÃO, MUDANDO COMPLETA E RADICALMENTE A SUA CONTRA CENA E SUA RELAÇÃO COM O PÚBLICO E INEVITAVELMENTE REFORÇANDO AINDA MAIS A CONDIÇÃO DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. OUTRA RADICAL MUDANÇA OCORREU QUANDO NÃO FOI POSSÍVEL A FIXAÇÃO DA CAMERA DE FILMAR QUE REGISTRAVA E PROJETAVA EM TEMPO REAL A REPRESENTAÇÃO, PASSANDO ESSA, ÀS MÃOS DO ENFERMEIRO, QUE A PARTIR DESSE MOMENTO TAMBÉM TRANSMUTA SUA RELAÇÃO E O SEU CONFRONTO COM O PÚBLICO. ASSIM POUCO A POUCO A REPRESENTAÇÃO COMEÇAVA A GANHAR A SUA FORMA DEFINITIVA.


T5 RECEPÇÃO DO ESPETÁCULO FIM DE PARTIDA


A RECEPÇÃO DO TRABALHO MOSTROU-NOS QUE A REPRESENTAÇÃO ATINGIU SEU OBJETIVO PRIMORDIAL: PRIMEIRO O ENCONTRO PARA LOGO A SEGUIR O CONFRONTO ENTRE NOSSOS IGUAIS, QUE AS VEZES NA BANALIDADE DAS NOSSAS VIDAS DIÁRIAS EVITAMOS FAZER, ANESTESIADOS PELO PESO EXTERNO DO MUNDO QUE AUMENTA AINDA MAIS NOSSO SOFRIMENTO HUMANO, FAZENDO-NOS FORÇOSAMENTE ESQUECER O QUE NÃO PODEMOS ESQUECER NUNCA; POIS ELE, O PESO QUE NOS FADA A TODOS, NÃO SE ESQUECE JAMAIS.

PODEMOS APRESENTAR ALGUMAS REAÇÕES DO PÚBLICO EM RELAÇÃO AO TRABALHO, UMAS COM MAIOR, OUTRAS COM MENOR IMPACTO, MAS TODAS COM PROFUNDAS REFLEXÕES A SEREM CONSIDERADAS.

A REPRESENTAÇÃO LEVAVA O PÚBLICO POR UM ROTEIRO ESPACIAL E SENSORIAL, NOS POSSIBILITANDO, DE ESPAÇO A ESPAÇO OBSERVAR CLARAMENTE AS MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS E EMOCIONAIS DO PÚBLICO PRESENTE.

QUANDO TODO O PÚBLICO ESTAVA REUNIDO NA PRIMEIRA SALA, A ESPERA QUE O ESPETÁCULO COMEÇASSE, A NORMALIDADE SOCIAL REINAVA COM SEU DISTANCIAMENTO TERRITORIAL, A PARTIR DO MOMENTO EM QUE AS PESSOAS ERAM CHAMADAS PARA A SEGUNDA SALA (ONDE AGUARDARIAM SENTADAS A CHAMADA DO ENFERMEIRO), SEU COMPORTAMENTO SOCIAL SOFRE UMA PEQUENA MAS NÍTIDA MUDANÇA, HÁ UMA CERTA CUMPLICIDADE TERRITORIAL QUE ATÉ A POUCO NÃO EXISTIA, O VOLUME VOCAL TENDE A UMA PEQUENA CONTENÇÃO, UMA CERTA EXPECTATIVA RONDA O ESPAÇO. QUANDO O ENFERMEIRO QUASE NU (VESTIDO APENAS COM A BATA CIRÚRGICA TRANSPARENTE) ADENTRA A SALA E CONVOCA UMA DAS PESSOAS PARA ACOMPANHÁ-LO, HÁ DE IMEDIATO DUAS REAÇÕES: A DA PESSOA QUE É CHAMADA E A DAS QUE PERMANECEM A ESPERA. A PARTIR DE AGORA TODAS MUITO CURIOSAS PARA SABER O QUE SE PASSA NA TERCEIRA SALA. A REAÇÃO QUE TEM A PRIMEIRA PESSOA A ENTRAR NA 3ª SALA É ÚNICA, COMO É ÚNICA A DA ÚLTIMA, NOTA-SE COM FREQUÊNCIA UM CERTO DESCONFORTO NESSA PESSOA. QUANDO NA SALA COMEÇAM ADENTRAR OUTROS SERES, O TOM DE CUMPLICIDADE NERVOSA MANIFESTAM-SE, É COMUM NESSA PARTE DO ROTEIRO UMA CERTA DESCONTRAÇÃO COMO QUE PREPARANDO PARA O QUE HÁ DE VIR.

QUANDO O PÚBLICO, DEPOIS DE VESTIDO, É ENCAMINHADO PARA A ÚLTIMA SALA, PERCEBE-SE DURANTE TODA A REPRESENTAÇÃO UM SILÊNCIO MORTAL E UM PESO IMENSURÁVEL NA FACE DE ALGUMAS PESSOAS.

EM GERAL NÃO HÁ PALMAS FINALIZANDO O ACONTECIMENTO; A ESTRUTURA DA DRAMATURGIA CÊNICA E O ESTADO PSICOLÓGICO DO PÚBLICO DÃO POUCAS POSSIBILIDADES PARA A CONCRETIZAÇÃO DESSE RITUAL, QUE TERMINA COM O ENFERMEIRO PEDINDO À TODOS QUE «FAÇAM O FAVOR DE SE LEVANTAR, TIRAR AS BATAS. POSAR AS MÁSCARAS E SAIR».

DURANTE AS VÁRIAS APRESENTAÇÕES O MAIS PERCEPTÍVEL ERA O ALÍVIO DE ALGUMAS PESSOAS AO TERMINO DA REPRESENTAÇÃO. EM ALGUNS CASOS HAVIA PESSOAS QUE CHEGAVAM ATÉ A TERCEIRA SALA E LITERALMENTE FUGIAM, UNS LOGO NA ENTRADA, OUTROS LOGO QUE O ENFERMEIRO VIRAVA AS COSTAS; AINDA ALGUNS FUGIAM QUANDO SENTIAM O FORTE ODOR A ÉTER QUE IMPREGNAVA O ESPAÇO. DE TODAS AS FUGAS, QUE NÃO FORAM ASSIM TÃO POUCAS, APENAS UMA PESSOA NÃO CONSEGUIU SUPORTAR A REPRESENTAÇÃO DEPOIS DE ESTAR NA QUARTA SALA, FUGINDO NO MEIO DA APRESENTAÇÃO.

ESSAS FUGAS JÁ ERAM PREVISTAS PELA ENCENAÇÃO, SABIA-SE QUE MUITOS DOS ELEMENTOS PRESENTES NA CRIAÇÃO LEVARIAM A CONFRONTOS QUE PODERIAM NÃO CHEGAR AO FINAL.

TRANSCREVEMOS ABAIXO ALGUNS FRAGMENTOS DE CRÍTICAS JORNALÍSTICA E ACADÉMICA SOBRE A REPRESENTAÇÃO DE O FIM DE PARTIDA, CRÍTICAS QUE NOS AJUDAM A COMPREENDER O GRAU DA PROFUNDIDADE QUE ATINGIMOS COM A REALIZAÇÃO DO NOSSO SAGRADO TRABALHO, HÁ QUE FICAR CLARO ISSO, NÃO DESPRENDEMOS ENERGIA PARA SAGRAR NOSSO EGOCENTRISMO ARTÍSTICO, O QUE NOS INTERESSA VERDADEIRAMENTE SÃO OS OLHOS NOS OLHOS E A POSSIBILIDADE QUE ESSE ATO REPRESENTA PARA ENTENDERMOS E ANULARMOS O SOFRIMENTO QUE NOS AFLIGE A ALMA.


PARA ACABAR


NAS NOITES CLARAS DA INSÓNIA ADORMECIDA DOS SERES QUE VAGAM NO INFINITO DO COTIDIANO DAS SOCIEDADES TORTAS PELAS MÃOS PESADAS DOS SENHORES FEUDAIS QUE DELIMITAM SEUS TERRITÓRIOS MARCANDO COM NOSSO SANGUE VERMELHO NOSSOS CORAÇÕES CASTRADOS PELAS DEVASTAÇÕES DAS MEMÓRIAS TORTUOSAS VAGAM TAMBÉM MENTES DISPERSAS QUE NAS MANHAS NEBULOSAS COM SEUS GRITOS BABILÓNICOS ACORDAM O DESASSOSSEGO GUARDADO EM NOSSAS ALMAS ESQUECIDAS QUE ABAFAM NOSSOS GRITOS DIÁRIOS FAZENDO-NOS RECUAR CONTRA O MURO E MERGULHAR NA INÉRCIA DAS VONTADES DETERMINADAS PELAS PESADAS MÃOS CARINHOSAS DOS SENHORES SEM ROSTOS COM SORRISOS AMARELOS.


Dramaturgia




Fim de Partida

(A partir de End Game, peça de Samuel Beckett)


Personagens O Enfermeiro

O homem

peixinho dourado


Cenário Uma Sala de Convívio, qualquer

Uma sala de Espera, vazia

Uma sala de Troca de roupa, negra

Uma sala UTI (unidade de tratamento intensivo), com cadeiras, tubos e garrafas penduradas pelo ar


Figurino Batas descartáveis de cirurgia


REGISTRO INTERPRETATIVO HIPERNATURALISTA (ENERGIA BUTOH)


ESTÉTICA EXPRESSIONISTA


Linguagem SIMBÓLICA


Iluminação Sala Convívio Branca

Sala de Espera Branca Contra luz

Sala de Troca de roupa Azul

Sala UTI Vermelha e foco Branco


Sonoplastia Música instrumental espacial


Tema O Vazio da existência Humana


CENA PRIMEIRA

unidade 1


  1. O público aguarda o início da representação numa sala CONTÍGUA. O ticket de entrada é uma senha numerada.


CENA SEGUNDA

unidade 1


  1. O público é encaminhado para uma segunda pequena sala totalmente vazia. Aguarda por mais alguns instantes. O espaço é preenchido de luz vermelha. Um homem vestido somente com uma roupa descartável de sala de cirurgia invade o espaço. Carrega a tiracolo um calendário e uma caneta pendurada no pescoço. Tem nos olhos olheiras profundas e vermelhas. Examina seu calendário e chama um número.


  1. Enfermeiro- NÚMERO 13, NÚMERO 13 POR FAVOR.


  1. Uma pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.


unidade 2


  1. Enfermeiro- O SEU TICKET POR FAVOR.


CENA TERCEIRA

unidade 1


  1. A pessoa entrega seu ticket à ele. Os dois desaparecem no interior da terceira sala. Um som ensurdecer se faz presente. A terceira sala é escura e longa, tem uma luz azulada preenchendo seu vazio, uma das paredes é lisa e uma outra repleta de aventais descartáveis cirúrgicos e máscaras também descartáveis. O enfermeiro pega num avental e numa máscara. Tem uma postura mecânica, indiferente.


unidade 2


  1. Enfermeiro (mecanicamente dando instruções) - ESTIQUE OS BRAÇOS...PARA FRENTE...PARA DENTRO DA BATA...VIRE-SE ...PONHA A MÁSCARA... ENCOSTE-SE...NA PAREDE...AO FUNDO POR FAVOR...


unidade 3


  1. Ele encosta-se junto dessa pessoa e segreda alguma coisa no seu ouvido esquerdo. São fragmentos de um poema.


  1. Enfermeiro (sussurra amavelmente)

NÓS QUE HABITAMOS ESTE MUNDO

QUE SABEMOS QUE A INTERNET LIGA O MUNDO

QUE SABEMOS DA VIDA PRIVADA DE CELEBRIDADES

QUE SABEMOS QUE NEGROS MORREM EM ÁFRICA AOS MILHARES COM FOME

NAS GUERRAS DOS HOMENS QUE ALIMENTAM SEUS BANQUETES COM O SANGUE DOS QUE PERDERAM SUAS IDENTIDADES

SABEMOS TAMBÉM QUE AQUI OUTROS TANTOS SOFREM OUTROS MALES

NÓS QUE SABEMOS SOBRE A LEI QUÂNTICA

QUE DUVIDAMOS DOS OLHOS AZUIS DE CRISTO

SERÁ QUE SOFREMOS TANTO?

DIGO, TANTO QUANTO PODEM SOFRER OUTROS semelhantes SERES

ABANDONADOS PELA SORTE DE SEUS DESTINOS TORTOS

CONTROLADOS POR MENTES QUE NÃO SE ENGANAM

QUE CONTROLAM A NÓS TAMBÉM

MENTES DESCONHECIDAS É VERDADE

QUE CONSTRÓEM COMUNIDADES DE SERES LARGADOS NOS SEUS CANTOS

E NÓS

NÓS MESMOS, LARGADOS NUM CANTO

GEMENDO NOSSA DOR SOLITÁRIA.


unidade 4


  1. Abandona a pessoa e dirige-se para a segunda sala. Examina seu calendário e chama outro número.


  1. Enfermeiro- NÚMERO 4, NÚMERO 4 POR FAVOR.


  1. Outra pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.


  1. Enfermeiro- SEU TICKET POR FAVOR.


  1. Vão os dois para dentro da terceira sala e o ritual repete-se. O enfermeiro depois de vestir cada pessoa segreda no seu ouvido esquerda um fragmento de um poema. Entra na sala entra a última pessoa. O enfermeiro veste-a, dirige-se para a extremidade da pequena sala, e abre uma terceira porta.


CENA QUARTA

unidade 1


  1. Enfermeiro- FAÇAM O FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, COM VOSSO NÚMERO, VOSSO NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO...


  1. O espaço é uma sala margeada por cadeiras cobertas com panos brancos e sujos de sangue, com garrafas penduradas pelo espaço, cheias de líquidos coloridos, com tubos transparentes que rasgam o espaço vazio a caminhão do solo. O chão é também forrado com panos brancos sujos de sangue. De frente para as cadeiras um televisor ligado a uma camera de filmar que projeta no ecrã televisivo imagens do público presente. O cheiro a éter impregna o espaço.


unidade 2


  1. enfermeiro invade a cena, agacha-se e dobra um pano que tapa alguma coisa no chão. Debaixo do pano um homem nu ligado aos tubos transparentes pendurados em garrafas pelo espaço. Seu corpo está coberto por sangue e hematomas. Dos seus olhos, narinas, ouvidos, punhos e pulsos escorre sangue. O enfermeiro coloca o pano dobrada embaixo da cabeça do homem nu e vai sentar-se numa cadeira ao seu lado. Pega a camera sobre a TV e começa registrar as imagens da representação. O homem nu tem sobre a face um velho trapo encardido que esconde toda a sua cara. Gradativamente ele vai-se destapando, retirando lentamente o trapo que esconde seu rosto. Seus movimentos são lentos e inergéticos. Sua respiração ofegante e pesada. A música baixa ao fundo gradativamente.


cena quinta

unidade 1


  1. HOMEM (retirando o trapo e olhando a sua volta lenta e gradativamente) - É o fim

Isto vai acabar

Os grãos juntam-se grãos Um a um

E um dia de repente é um monte

Um montinho

o monte possível


unidade 2


  1. HOMEM (olhando para o trapo já junto a sua face) - Velho trapo haverá miséria maior que a minha

Talvez tenha havido Sem dúvida noutros tempos

E hoje Será que sofro tanto como sofrem meus semelhantes seres

Isto quer dizer que nossos sentimentos equivalem-se

Sem dúvida que sim

Tudo é tão absoluto

Quanto maior se é mais cheio se está

Ou quanto mais vazio


unidade 3


  1. Seu corpo é rasgado por uma dor física qualquer.


  1. HOMEM- Basta


  1. Relaxa ofegantemente tentando aliviar a dor.


unidade 4


  1. HOMEM- Já são horas que isto acabe e no entanto hesito em chegar ao fim

Em todo o caso ainda vacilo em acabar

Que terei eu hoje

Seria melhor que eu voltasse a dormir

Fora daqui é a morte


unidade 5


  1. Novamente uma pequena dor invade seu ser.


  1. HOMEM- Malditos progenitores

Ah os velhos Só pensam em comer Não pensam noutra coisa

Cada um com a sua especialidade


unidade 6


  1. A dor intensifica-se.


  1. HOMEM- Isto não vai depressa

Mas é sempre assim no final do dia

Um final de dia como todos os outros


unidade 7


  1. Progressivamente a dor aumenta até chegar ao insuportável.


  1. HOMEM- Isto progride


unidade 8


  1. Tentando relaxar.


  1. HOMEM- ah se eu dormisse

Se eu dormisse talvez eu amasse

Talvez eu e alguém iríamos pelos bosques

Veríamos o céu e a terra

Correríamos atrás dos nossos sonhos perdidos

Mergulharíamos no riacho doce dos nossos desejos esquecidos

E eu fugiria


unidade 9


  1. Volta seu corpo para a posição inicial tentando adormecer.

Violentamente uma dor aguda invade sua cabeça, como querendo estourá-la.


  1. HOMEM- Há uma gota de água na minha cabeça

Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega

Ah se eu dormisse

Talvez sonhasse e nossos corações seriam tranquilos

Seria um sonho


unidade 10


  1. Relaxa por completo na sua dor e pouco a pouco volta a sua normalidade.


  1. HOMEM- Mas quando é que isto acaba

Do que será que ainda se pode falar

Não há pressa


unidade 11


  1. Lentamente começa a sentar-se.


  1. HOMEM- A minha ira recai


unidade 12


  1. Olhando a sua volta com determinação


  1. HOMEM- Tenho vontade de fazer xixi

Tenho vontade de fazer xixi

tenho vontade de fazer xixi...


unidade 13


  1. Procura desesperadamente seu pênis. Encontra-o.


  1. HOMEM (angustiado) - Mas também não tenho pressa


unidade 14


  1. Pausa


  1. HOMEM- Pela manhã nos dão estimulantes Pela tarde estupefacientes

Ou ao contrário Tanto faz


unidade 15


  1. Alguma coisa fora desse tempo chama a sua atenção e ele tenta ouvir o mais além.


  1. HOMEM (colocando as mão no ouvido esquerdo) - Mais além está o outro inferno

Ouçam


unidade 16


  1. Olhando para trás fixando-se por algum tempo em algo e retornando a olhar pra frente.


  1. HOMEM- Ouviram


unidade 17


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Tudo isto é oco


unidade 18


  1. A dor ausente retorna para marcar sua presença.


  1. HOMEM- Basta


unidade 19


  1. Olhando a sua volta angustiado.


  1. HOMEM- Isto é duma tristeza

Nada mexe

É tudo tão cinzento

Preto claro

Todo o universo

Nunca se sabe


unidade 20


  1. Tentando recuperar-se lentamente.


  1. HOMEM- Esta noite vi meu peito aberto sangrando

Tinha uma ferida muito grande

Parecia uma coisa viva

Nessas noites quando meu peito aberto vermelho Pulsa meu coração infantil

Meus olhos parecem ver além das estrelas

Não sei


unidade 21


  1. Começa lentamente a tentar ficar em pé. Não consegue.


  1. HOMEM- Não estaríamos na hora de significar alguma coisa


unidade 22


  1. Tenta novamente e com muito esforço assume uma posição quase ereta.


  1. HOMEM- Se uma inteligência regressasse a terra

Não estaria tentada a formular idéias a custa de nos observar


unidade 23


  1. Olhando a sua volta, como esperando respostas.


  1. HOMEM- Até mesmo nós

Nós por momentos


unidade 24


  1. Olha para uma garrafa que está a sua frente e tenta apanhá-la. Esforça-se exaustivamente. Não consegue. Cai.


  1. HOMEM- E pensar que tudo isto talvez não tenha servido para nada


unidade 25


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Isto demora

Alguma coisa segue seu curso


unidade 26


  1. Ele volta a se deitar.


  1. HOMEM- Partirei só a caminho do sul a procura do mar

Construirei uma jangada

As corrente marítimas conduzir-me-ão longe

Muito longe

Até outros mamíferos

Partirei só

E vocês um dia ficarão cegos como eu

Ficarão sentados em algum canto escuro na plenitude do vácuo

Para sempre na sombra

Como eu

Um dia dirão

Estamos cansados

Vamos nos sentar um bocadinho

E sentarão

E depois dirão

Temos fome

Vamos nos levantar e fazer nosso comer

Mas não se levantarão

E dirão

Fizemos mal em nos sentarmos

Mas visto que sentamos Continuaremos sentados mais um pouco

Levantaremos depois e faremos o nosso comer

Mas vocês não se levantarão E nem farão o vosso comer

Olharão por um instante a parede branca E dirão:

Vamos fechar os olhos

Talvez dormir um pouco

e Depois pensam vocês

tudo ficará melhor

E fecharão os olhos

E quando voltarem a abri-los já não haverá parede branca

Apenas o vácuo da incerteza vazia

o infinito os rodeará E nem todos os mortos de todos os tempos Bastarão para preencher o vazio das vossas certezas

E como uma semente no deserto árido Estarão vocês sós

Sozinhos

Um dia saberão o que é

Saberão como eu

Exceto que vocês não terão ninguém

Porque não tiveram piedade de ninguém

à parte que não haverá mais ninguém por quem sentir piedade


unidade 27


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Só temos uma solução

Aniquilarmo-nos

Que tal

Gosto das velhas perguntas

Das velhas respostas que lançam novas perguntas

Não há nada melhor


unidade 28


  1. A dor volta avassaladoramente profunda. seus músculos ENRIJECEM. Sua respiração comprime-se


  1. HOMEM- Isto progride


unidade 29


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Sigo meu curso


unidade 30


  1. Tempo. Senta-se.


  1. HOMEM- Ah as pessoas

Tem-se que lhes explicar tudo

Bom vamos lá

eu conheci um louco que julgava que o fim do mundo tinha Chegado

Ele pintava

Eu gostava dele

Ia visitá-lo ao hospício

Pegava-lhe na mão e arrastava-o até a janela

Olha ali, dizia eu

Os girassóis cortando o espaço Colorindo o céu azul

E ali as mulheres alegres cantando a beira do riacho das pedras pontiagudas

Ele soltava-se da minha mão E retornava ao seu canto

Ele só havia visto cinzas e devastação


unidade 31


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Parece-me que esses casos não são assim tão raros


unidade 32


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Eu gostava dele

Ele era pintor

Pintava


unidade 33


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Não vos parece que isto já durou o bastante


unidade 34


  1. Tenta levantar e acaba por ficar de joelhos.


  1. HOMEM- Silêncio por favor


cena sexta

unidade 1


  1. Silêncio. o homem levanta-se e seu registro interpretativo muda por completo, seu corpo ereto ocupa todo o espaço com seus músculos rijos, sua voz que aparentava a fragilidade do fim, das forças que acabam, preenche o vazio sonoro do espaço com força e determinação. tem um tom irônico no falar.


  1. HOMEM- Onde estava eu

Ah sim

o homem aproximou-se lentamente

Arrastando-se de barriga para baixo

De uma palidez e uma magreza admiráveis

Um longo silêncio se fez ouvir

Eu enchia calmamente o meu cachimbo de madrepérola

Acendia-o

Soltava uma baforada na sua cara

Vamos dizia eu

Sou todo ouvidos

Fazia nesse dia recordo-me perfeitamente Um frio extremamente vivo

Zero no termómetro

Mas como estávamos na véspera de natal Isso não tinha nada de extraordinário

Um clima de estação como costuma ser

Vamos dizia eu

Que mau tempo trouxe-te aqui

Ele levantou a cara completamente suja de porcarias

Borrada com suas lágrimas paternas

Olhou-me nos olhos

Não, não me olhe

Ele baixou a cabeça Murmurando desculpas sem dúvida

Diga logo

Eu estou muito ocupado com os preparativos da festa como deve calcular

Mas qual é o objetivo dessa invasão

Fazia um dia maravilhosamente esplendido

sol gélido dos ventos do norte queimavam nossos lábios serenos

Vamos, vamos diga alguma coisa

Foi então que ele tomou a sua decisão

É o meu filho disse ele

Como se o sexo tivesse importância

De onde viria ele

Meio dia mais ou menos a cavalo disse ele

Não me venha dizer que ainda há população por aí

Era o que faltava

Expliquei-lhe que não havia almas vivas nos próximos 2 milhões de Kms

Informei-lhe sobre a extinção total de toda a espécie animal sobre a face da terra

Nem um gato revirando restos de comida

Bom, então quer fazer-me acreditar que deixou seu menino lá

Completamente só

E ainda por cima vivo

Fazia nesse dia recordo-me um vento uivante que gelava nossas espinhas

Vamos, vamos que quer de MIM afinal

Um pão disse ele

Um pão para o meu menino

Um pedinte como sempre

Pão

Mas eu não tenho pão

Então trigo

Trigo realmente tenho em meus celeiros

Mas reflita

Eu dou-te o trigo

Um K

Um K e 1/2

Leva-o ao teu filho e prepara~lhe se ele ainda estiver vivo

Uma boa papa

Uma boa papa e 1/2

Ele retoma suas forças

Talvez

E depois

Zanguei-me

Raciocina Estamos na terra o que espera você

Que a terra renasça em primavera

Que os mares e os rios voltem a encherem-se de peixes

Que ainda exista no céu um lugar para os imbecis

Para o senhor

Pouco a pouco acalmei-me

o suficiente para lhe perguntar quanto tempo demorou para chegar aqui

03 dias completos

em que estado tinha deixado a criança

mergulhado no sono disse ele

mas que espécie de sono

um sono infantil

infantil como

como os anjos que disfarçam a imortalidade em sorrisos com asas sem fim

enfim ele tinha me comovido

propus-lhe que trabalhasse para MIM

depois imaginava eu que ele não ficaria por muito tempo

aqui se tiver cuidado pode-se morrer uma bela morte

naturalmente confortável

então disse ele

a criança, posso trazer a criança

se ainda ela estiver viva é claro

era o momento que eu esperava

se eu posso recolher a criança

revejo-o de joelhos

as mãos no chão

fixava-me com seus olhos de louco apesar de ter-lhe avisado para não mirar meus olhos


unidade 2


(deixando a narrativa de lado, voltando gradativamente ao seu registro original)

chega por hoje

não terei por muito mais tempo esta estória

a não ser que acrescente personagens

mas onde encontrá-los

ai meu deus tende piedade de mim


unidade 3


  1. Ajoelha-se em posição de oração.


  1. HOMEM- agora rezemos a deus

silêncio (mirando a sua volta) um pouco de compostura senão não chegamos a nada (olhando para os céus) Pai nosso....amém


unidade 4


  1. Lentamente desmancha a posição de oração.


  1. HOMEM- Fim da palhaçada


cena sétima

unidade 1


  1. Deita-se relaxadamente.


  1. HOMEM- Sinto-me um pouco vazio

o esforço criativo prolongado suga-me todas as forças

Se eu pudesse arrastar-me a beira do mar Faria um travesseiro de areia

e durante a noite No meio de sonhos selvagens a maré viria-me acordar

eu acenaria para os navegadores perdidos

E depois nadaria até terras distantes

Ah se pudesse me arrastar


unidade 2


  1. Chora compulsivamente.


  1. HOMEM- que é que eu vou fazer

que é que eu vou fazer

É isso

Agora eu represento


unidade 3


  1. Senta-se.


  1. HOMEM- Chora-se para nada

Para não se rir

E pouco a pouco uma verdadeira tristeza nos ganha


unidade 4


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Todos aqueles que eu poderia ter ajudado

Ajudado

Salvado

Mas raciocinem

Estamos na terra

Não tem remédio


unidade 5


  1. Olhando fixamente as pessoas a sua volta.


  1. HOMEM- Vão-se embora e amem-se

Lambam-se uns aos outros

Voltem aos vossos bacanais

Mas por favor deixem-me em paz


unidade 6


  1. Tempo.


unidade 7


  1. HOMEM- Tudo isto é uma grande merda

Nem sequer um cão verdadeiro

o fim está no começo e No entanto continua-se

Eu poderia talvez continuar a minha estória Acabá-la e começar outra

Talvez atirar-me ao chão

Enterrar minhas unhas nas ranhuras e arrastar-me com meus pulsos


unidade 8


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Isto será o fim

E eu me pergunto quem poderá tê-lo trazido

Por que demorou tanto


unidade 9


  1. Tentando levantar-se.


  1. HOMEM- Eu estou aqui neste refúgio só contra o silêncio e a inércia

Se eu puder calar-me e ficar imóvel será coisa arrumada

Chamaria pelo meu pai e pelo meu filho

Chamaria 03 vezes para o caso deles não terem ouvido nem na 1ª nem na 2ª


unidade 10


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Passos

Ratos

Olhos

o suspiro que se retém

Depois falar depressa

Não parar de falar

Falar como a criança Que se multiplica em 3, 4 para estar acompanhada

E falar em conjunto Na noite Na madrugada morta

E como grãos 1 a 1 soma-se e espera-se

para que toda a vida nos faça uma vida

Então que isto acabe

Que isto rebente com o resto No fim com as sombras Com os murmúrios e com todo o mal


unidade 11


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Para acabar apenas uma coisa

Uma última graça

Compete-me representar


unidade 12


  1. Posiciona-se.


  1. HOMEM- Velho fim de partida perdida

Deitar fora

Tirar

Tornar a repor

Tu chamavas o tempo

Tu reclamavas a noite

Ela veio

Ela desceu

HEI-LA

E depois

Momentos nulos

Sempre nulos

Mas se querem fazer a conta

A conta ai está

E a estória acaba


cena oitava

unidade 1


  1. Levanta-se lentamente e com muito esforço em direção a garrafa presa por tubos a sua cabeça.


  1. HOMEM- Se ele poderia ter o filho com ele

Era o momento que eu esperava

Não quer abandoná-lo

Quer que ele cresça enquanto o senhor vai minguando

Ele só conhece a morte o frio e fome nos seus extremos

Mas o senhor

o senhor deve saber o que é a terra presentemente

Coloquei-o perante suas responsabilidades


cena nona

unidade 1


  1. A dor retorna com intensidade cruel, levando seu corpo ao solo.


  1. HOMEM- Bem cá estou eu

E para acabar

Deitar fora

Arremessar distante

Visto que isto é assim

Não falemos mais nisto

Não falemos mais


unidade 2


  1. Agarra decididamente o trapo.


  1. HOMEM- Velho trapo

Tu ficas comigo


unidade 3


  1. Enfia o trapo na boca tentando sufocar-se.


  1. Black’out. A música invade o espaço. Tempo. A música baixa gradativamente até desaparecer. Silêncio.


CENA décima

unidade 1


  1. Começa-se ouvir ao fundo uma pesada respiração. Na escuridão do silêncio ouve-se a voz do enfermeiro.


  1. Enfermeiro- Ah a juventude

com seus músculos rijos

com suas mente embrulhada

que grita por todos os cantos suas inquietações precisas

que sabe o valor da sua vida oprimida

que só viveu até o presente

a liberdade plena da vida

herança recém perdida na infância preciosa

lúdica

liberta

juventude maioritariamente absoluta

ah a juventude

que foge de seus pais aflitos

que faz o seu pão no mercado negro do ócio

que cresce e conhece o patrão da vida eterna

que bate cartão

e esquece o passado ainda tão presente em seu coração infantil

que envelhece na amargura da sua vida forçada

forjada

e que num futuro próximo

ainda não velha

reclama em frente a TV

da vida

do nada

do tudo

e envelhece

mas nunca deixa de reclamar

há que deixar bem claro isso

e assim molda sua poltrona

com suas amarguras futuras.


CENA décima primeira

unidade 1


  1. A música e a luz voltam gradativamente preenchendo todo o vazio do silêncio. O homem lentamente senta-se, abre seus olhos que até o momento estavam fechados, mira seu olhar nos olhos ao seu redor, assustado começa a chorar suas tristezas terrenas, até seu choro torna-se compulsivamente pesado.


unidade 2


  1. enfermeiro levanta-se do seu lugar e caminha em direção do homem. O homem assusta-se aumentando seu choro. O Enfermeiro aproxima-se do homem, e fraternalmente pousa a cabeça do homem sobre seu peito tentando acalmá-lo. Fixa-se seu olhar em todos os presentes.


unidade 3


  1. Enfermeiro (energicamente) - Façam o favor de se levantar, tirar as batas, pousar as máscaras e sair.


CENA décima segunda

unidade 1


  1. som alegre e festivo de uma canção popular invade a cena.


  1. público gradativamente abandona o espaço.





the end