Friday, April 6, 2007

Dramaturgia




Fim de Partida

(A partir de End Game, peça de Samuel Beckett)


Personagens O Enfermeiro

O homem

peixinho dourado


Cenário Uma Sala de Convívio, qualquer

Uma sala de Espera, vazia

Uma sala de Troca de roupa, negra

Uma sala UTI (unidade de tratamento intensivo), com cadeiras, tubos e garrafas penduradas pelo ar


Figurino Batas descartáveis de cirurgia


REGISTRO INTERPRETATIVO HIPERNATURALISTA (ENERGIA BUTOH)


ESTÉTICA EXPRESSIONISTA


Linguagem SIMBÓLICA


Iluminação Sala Convívio Branca

Sala de Espera Branca Contra luz

Sala de Troca de roupa Azul

Sala UTI Vermelha e foco Branco


Sonoplastia Música instrumental espacial


Tema O Vazio da existência Humana


CENA PRIMEIRA

unidade 1


  1. O público aguarda o início da representação numa sala CONTÍGUA. O ticket de entrada é uma senha numerada.


CENA SEGUNDA

unidade 1


  1. O público é encaminhado para uma segunda pequena sala totalmente vazia. Aguarda por mais alguns instantes. O espaço é preenchido de luz vermelha. Um homem vestido somente com uma roupa descartável de sala de cirurgia invade o espaço. Carrega a tiracolo um calendário e uma caneta pendurada no pescoço. Tem nos olhos olheiras profundas e vermelhas. Examina seu calendário e chama um número.


  1. Enfermeiro- NÚMERO 13, NÚMERO 13 POR FAVOR.


  1. Uma pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.


unidade 2


  1. Enfermeiro- O SEU TICKET POR FAVOR.


CENA TERCEIRA

unidade 1


  1. A pessoa entrega seu ticket à ele. Os dois desaparecem no interior da terceira sala. Um som ensurdecer se faz presente. A terceira sala é escura e longa, tem uma luz azulada preenchendo seu vazio, uma das paredes é lisa e uma outra repleta de aventais descartáveis cirúrgicos e máscaras também descartáveis. O enfermeiro pega num avental e numa máscara. Tem uma postura mecânica, indiferente.


unidade 2


  1. Enfermeiro (mecanicamente dando instruções) - ESTIQUE OS BRAÇOS...PARA FRENTE...PARA DENTRO DA BATA...VIRE-SE ...PONHA A MÁSCARA... ENCOSTE-SE...NA PAREDE...AO FUNDO POR FAVOR...


unidade 3


  1. Ele encosta-se junto dessa pessoa e segreda alguma coisa no seu ouvido esquerdo. São fragmentos de um poema.


  1. Enfermeiro (sussurra amavelmente)

NÓS QUE HABITAMOS ESTE MUNDO

QUE SABEMOS QUE A INTERNET LIGA O MUNDO

QUE SABEMOS DA VIDA PRIVADA DE CELEBRIDADES

QUE SABEMOS QUE NEGROS MORREM EM ÁFRICA AOS MILHARES COM FOME

NAS GUERRAS DOS HOMENS QUE ALIMENTAM SEUS BANQUETES COM O SANGUE DOS QUE PERDERAM SUAS IDENTIDADES

SABEMOS TAMBÉM QUE AQUI OUTROS TANTOS SOFREM OUTROS MALES

NÓS QUE SABEMOS SOBRE A LEI QUÂNTICA

QUE DUVIDAMOS DOS OLHOS AZUIS DE CRISTO

SERÁ QUE SOFREMOS TANTO?

DIGO, TANTO QUANTO PODEM SOFRER OUTROS semelhantes SERES

ABANDONADOS PELA SORTE DE SEUS DESTINOS TORTOS

CONTROLADOS POR MENTES QUE NÃO SE ENGANAM

QUE CONTROLAM A NÓS TAMBÉM

MENTES DESCONHECIDAS É VERDADE

QUE CONSTRÓEM COMUNIDADES DE SERES LARGADOS NOS SEUS CANTOS

E NÓS

NÓS MESMOS, LARGADOS NUM CANTO

GEMENDO NOSSA DOR SOLITÁRIA.


unidade 4


  1. Abandona a pessoa e dirige-se para a segunda sala. Examina seu calendário e chama outro número.


  1. Enfermeiro- NÚMERO 4, NÚMERO 4 POR FAVOR.


  1. Outra pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.


  1. Enfermeiro- SEU TICKET POR FAVOR.


  1. Vão os dois para dentro da terceira sala e o ritual repete-se. O enfermeiro depois de vestir cada pessoa segreda no seu ouvido esquerda um fragmento de um poema. Entra na sala entra a última pessoa. O enfermeiro veste-a, dirige-se para a extremidade da pequena sala, e abre uma terceira porta.


CENA QUARTA

unidade 1


  1. Enfermeiro- FAÇAM O FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, COM VOSSO NÚMERO, VOSSO NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO...


  1. O espaço é uma sala margeada por cadeiras cobertas com panos brancos e sujos de sangue, com garrafas penduradas pelo espaço, cheias de líquidos coloridos, com tubos transparentes que rasgam o espaço vazio a caminhão do solo. O chão é também forrado com panos brancos sujos de sangue. De frente para as cadeiras um televisor ligado a uma camera de filmar que projeta no ecrã televisivo imagens do público presente. O cheiro a éter impregna o espaço.


unidade 2


  1. enfermeiro invade a cena, agacha-se e dobra um pano que tapa alguma coisa no chão. Debaixo do pano um homem nu ligado aos tubos transparentes pendurados em garrafas pelo espaço. Seu corpo está coberto por sangue e hematomas. Dos seus olhos, narinas, ouvidos, punhos e pulsos escorre sangue. O enfermeiro coloca o pano dobrada embaixo da cabeça do homem nu e vai sentar-se numa cadeira ao seu lado. Pega a camera sobre a TV e começa registrar as imagens da representação. O homem nu tem sobre a face um velho trapo encardido que esconde toda a sua cara. Gradativamente ele vai-se destapando, retirando lentamente o trapo que esconde seu rosto. Seus movimentos são lentos e inergéticos. Sua respiração ofegante e pesada. A música baixa ao fundo gradativamente.


cena quinta

unidade 1


  1. HOMEM (retirando o trapo e olhando a sua volta lenta e gradativamente) - É o fim

Isto vai acabar

Os grãos juntam-se grãos Um a um

E um dia de repente é um monte

Um montinho

o monte possível


unidade 2


  1. HOMEM (olhando para o trapo já junto a sua face) - Velho trapo haverá miséria maior que a minha

Talvez tenha havido Sem dúvida noutros tempos

E hoje Será que sofro tanto como sofrem meus semelhantes seres

Isto quer dizer que nossos sentimentos equivalem-se

Sem dúvida que sim

Tudo é tão absoluto

Quanto maior se é mais cheio se está

Ou quanto mais vazio


unidade 3


  1. Seu corpo é rasgado por uma dor física qualquer.


  1. HOMEM- Basta


  1. Relaxa ofegantemente tentando aliviar a dor.


unidade 4


  1. HOMEM- Já são horas que isto acabe e no entanto hesito em chegar ao fim

Em todo o caso ainda vacilo em acabar

Que terei eu hoje

Seria melhor que eu voltasse a dormir

Fora daqui é a morte


unidade 5


  1. Novamente uma pequena dor invade seu ser.


  1. HOMEM- Malditos progenitores

Ah os velhos Só pensam em comer Não pensam noutra coisa

Cada um com a sua especialidade


unidade 6


  1. A dor intensifica-se.


  1. HOMEM- Isto não vai depressa

Mas é sempre assim no final do dia

Um final de dia como todos os outros


unidade 7


  1. Progressivamente a dor aumenta até chegar ao insuportável.


  1. HOMEM- Isto progride


unidade 8


  1. Tentando relaxar.


  1. HOMEM- ah se eu dormisse

Se eu dormisse talvez eu amasse

Talvez eu e alguém iríamos pelos bosques

Veríamos o céu e a terra

Correríamos atrás dos nossos sonhos perdidos

Mergulharíamos no riacho doce dos nossos desejos esquecidos

E eu fugiria


unidade 9


  1. Volta seu corpo para a posição inicial tentando adormecer.

Violentamente uma dor aguda invade sua cabeça, como querendo estourá-la.


  1. HOMEM- Há uma gota de água na minha cabeça

Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega

Ah se eu dormisse

Talvez sonhasse e nossos corações seriam tranquilos

Seria um sonho


unidade 10


  1. Relaxa por completo na sua dor e pouco a pouco volta a sua normalidade.


  1. HOMEM- Mas quando é que isto acaba

Do que será que ainda se pode falar

Não há pressa


unidade 11


  1. Lentamente começa a sentar-se.


  1. HOMEM- A minha ira recai


unidade 12


  1. Olhando a sua volta com determinação


  1. HOMEM- Tenho vontade de fazer xixi

Tenho vontade de fazer xixi

tenho vontade de fazer xixi...


unidade 13


  1. Procura desesperadamente seu pênis. Encontra-o.


  1. HOMEM (angustiado) - Mas também não tenho pressa


unidade 14


  1. Pausa


  1. HOMEM- Pela manhã nos dão estimulantes Pela tarde estupefacientes

Ou ao contrário Tanto faz


unidade 15


  1. Alguma coisa fora desse tempo chama a sua atenção e ele tenta ouvir o mais além.


  1. HOMEM (colocando as mão no ouvido esquerdo) - Mais além está o outro inferno

Ouçam


unidade 16


  1. Olhando para trás fixando-se por algum tempo em algo e retornando a olhar pra frente.


  1. HOMEM- Ouviram


unidade 17


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Tudo isto é oco


unidade 18


  1. A dor ausente retorna para marcar sua presença.


  1. HOMEM- Basta


unidade 19


  1. Olhando a sua volta angustiado.


  1. HOMEM- Isto é duma tristeza

Nada mexe

É tudo tão cinzento

Preto claro

Todo o universo

Nunca se sabe


unidade 20


  1. Tentando recuperar-se lentamente.


  1. HOMEM- Esta noite vi meu peito aberto sangrando

Tinha uma ferida muito grande

Parecia uma coisa viva

Nessas noites quando meu peito aberto vermelho Pulsa meu coração infantil

Meus olhos parecem ver além das estrelas

Não sei


unidade 21


  1. Começa lentamente a tentar ficar em pé. Não consegue.


  1. HOMEM- Não estaríamos na hora de significar alguma coisa


unidade 22


  1. Tenta novamente e com muito esforço assume uma posição quase ereta.


  1. HOMEM- Se uma inteligência regressasse a terra

Não estaria tentada a formular idéias a custa de nos observar


unidade 23


  1. Olhando a sua volta, como esperando respostas.


  1. HOMEM- Até mesmo nós

Nós por momentos


unidade 24


  1. Olha para uma garrafa que está a sua frente e tenta apanhá-la. Esforça-se exaustivamente. Não consegue. Cai.


  1. HOMEM- E pensar que tudo isto talvez não tenha servido para nada


unidade 25


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Isto demora

Alguma coisa segue seu curso


unidade 26


  1. Ele volta a se deitar.


  1. HOMEM- Partirei só a caminho do sul a procura do mar

Construirei uma jangada

As corrente marítimas conduzir-me-ão longe

Muito longe

Até outros mamíferos

Partirei só

E vocês um dia ficarão cegos como eu

Ficarão sentados em algum canto escuro na plenitude do vácuo

Para sempre na sombra

Como eu

Um dia dirão

Estamos cansados

Vamos nos sentar um bocadinho

E sentarão

E depois dirão

Temos fome

Vamos nos levantar e fazer nosso comer

Mas não se levantarão

E dirão

Fizemos mal em nos sentarmos

Mas visto que sentamos Continuaremos sentados mais um pouco

Levantaremos depois e faremos o nosso comer

Mas vocês não se levantarão E nem farão o vosso comer

Olharão por um instante a parede branca E dirão:

Vamos fechar os olhos

Talvez dormir um pouco

e Depois pensam vocês

tudo ficará melhor

E fecharão os olhos

E quando voltarem a abri-los já não haverá parede branca

Apenas o vácuo da incerteza vazia

o infinito os rodeará E nem todos os mortos de todos os tempos Bastarão para preencher o vazio das vossas certezas

E como uma semente no deserto árido Estarão vocês sós

Sozinhos

Um dia saberão o que é

Saberão como eu

Exceto que vocês não terão ninguém

Porque não tiveram piedade de ninguém

à parte que não haverá mais ninguém por quem sentir piedade


unidade 27


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Só temos uma solução

Aniquilarmo-nos

Que tal

Gosto das velhas perguntas

Das velhas respostas que lançam novas perguntas

Não há nada melhor


unidade 28


  1. A dor volta avassaladoramente profunda. seus músculos ENRIJECEM. Sua respiração comprime-se


  1. HOMEM- Isto progride


unidade 29


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Sigo meu curso


unidade 30


  1. Tempo. Senta-se.


  1. HOMEM- Ah as pessoas

Tem-se que lhes explicar tudo

Bom vamos lá

eu conheci um louco que julgava que o fim do mundo tinha Chegado

Ele pintava

Eu gostava dele

Ia visitá-lo ao hospício

Pegava-lhe na mão e arrastava-o até a janela

Olha ali, dizia eu

Os girassóis cortando o espaço Colorindo o céu azul

E ali as mulheres alegres cantando a beira do riacho das pedras pontiagudas

Ele soltava-se da minha mão E retornava ao seu canto

Ele só havia visto cinzas e devastação


unidade 31


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Parece-me que esses casos não são assim tão raros


unidade 32


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Eu gostava dele

Ele era pintor

Pintava


unidade 33


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Não vos parece que isto já durou o bastante


unidade 34


  1. Tenta levantar e acaba por ficar de joelhos.


  1. HOMEM- Silêncio por favor


cena sexta

unidade 1


  1. Silêncio. o homem levanta-se e seu registro interpretativo muda por completo, seu corpo ereto ocupa todo o espaço com seus músculos rijos, sua voz que aparentava a fragilidade do fim, das forças que acabam, preenche o vazio sonoro do espaço com força e determinação. tem um tom irônico no falar.


  1. HOMEM- Onde estava eu

Ah sim

o homem aproximou-se lentamente

Arrastando-se de barriga para baixo

De uma palidez e uma magreza admiráveis

Um longo silêncio se fez ouvir

Eu enchia calmamente o meu cachimbo de madrepérola

Acendia-o

Soltava uma baforada na sua cara

Vamos dizia eu

Sou todo ouvidos

Fazia nesse dia recordo-me perfeitamente Um frio extremamente vivo

Zero no termómetro

Mas como estávamos na véspera de natal Isso não tinha nada de extraordinário

Um clima de estação como costuma ser

Vamos dizia eu

Que mau tempo trouxe-te aqui

Ele levantou a cara completamente suja de porcarias

Borrada com suas lágrimas paternas

Olhou-me nos olhos

Não, não me olhe

Ele baixou a cabeça Murmurando desculpas sem dúvida

Diga logo

Eu estou muito ocupado com os preparativos da festa como deve calcular

Mas qual é o objetivo dessa invasão

Fazia um dia maravilhosamente esplendido

sol gélido dos ventos do norte queimavam nossos lábios serenos

Vamos, vamos diga alguma coisa

Foi então que ele tomou a sua decisão

É o meu filho disse ele

Como se o sexo tivesse importância

De onde viria ele

Meio dia mais ou menos a cavalo disse ele

Não me venha dizer que ainda há população por aí

Era o que faltava

Expliquei-lhe que não havia almas vivas nos próximos 2 milhões de Kms

Informei-lhe sobre a extinção total de toda a espécie animal sobre a face da terra

Nem um gato revirando restos de comida

Bom, então quer fazer-me acreditar que deixou seu menino lá

Completamente só

E ainda por cima vivo

Fazia nesse dia recordo-me um vento uivante que gelava nossas espinhas

Vamos, vamos que quer de MIM afinal

Um pão disse ele

Um pão para o meu menino

Um pedinte como sempre

Pão

Mas eu não tenho pão

Então trigo

Trigo realmente tenho em meus celeiros

Mas reflita

Eu dou-te o trigo

Um K

Um K e 1/2

Leva-o ao teu filho e prepara~lhe se ele ainda estiver vivo

Uma boa papa

Uma boa papa e 1/2

Ele retoma suas forças

Talvez

E depois

Zanguei-me

Raciocina Estamos na terra o que espera você

Que a terra renasça em primavera

Que os mares e os rios voltem a encherem-se de peixes

Que ainda exista no céu um lugar para os imbecis

Para o senhor

Pouco a pouco acalmei-me

o suficiente para lhe perguntar quanto tempo demorou para chegar aqui

03 dias completos

em que estado tinha deixado a criança

mergulhado no sono disse ele

mas que espécie de sono

um sono infantil

infantil como

como os anjos que disfarçam a imortalidade em sorrisos com asas sem fim

enfim ele tinha me comovido

propus-lhe que trabalhasse para MIM

depois imaginava eu que ele não ficaria por muito tempo

aqui se tiver cuidado pode-se morrer uma bela morte

naturalmente confortável

então disse ele

a criança, posso trazer a criança

se ainda ela estiver viva é claro

era o momento que eu esperava

se eu posso recolher a criança

revejo-o de joelhos

as mãos no chão

fixava-me com seus olhos de louco apesar de ter-lhe avisado para não mirar meus olhos


unidade 2


(deixando a narrativa de lado, voltando gradativamente ao seu registro original)

chega por hoje

não terei por muito mais tempo esta estória

a não ser que acrescente personagens

mas onde encontrá-los

ai meu deus tende piedade de mim


unidade 3


  1. Ajoelha-se em posição de oração.


  1. HOMEM- agora rezemos a deus

silêncio (mirando a sua volta) um pouco de compostura senão não chegamos a nada (olhando para os céus) Pai nosso....amém


unidade 4


  1. Lentamente desmancha a posição de oração.


  1. HOMEM- Fim da palhaçada


cena sétima

unidade 1


  1. Deita-se relaxadamente.


  1. HOMEM- Sinto-me um pouco vazio

o esforço criativo prolongado suga-me todas as forças

Se eu pudesse arrastar-me a beira do mar Faria um travesseiro de areia

e durante a noite No meio de sonhos selvagens a maré viria-me acordar

eu acenaria para os navegadores perdidos

E depois nadaria até terras distantes

Ah se pudesse me arrastar


unidade 2


  1. Chora compulsivamente.


  1. HOMEM- que é que eu vou fazer

que é que eu vou fazer

É isso

Agora eu represento


unidade 3


  1. Senta-se.


  1. HOMEM- Chora-se para nada

Para não se rir

E pouco a pouco uma verdadeira tristeza nos ganha


unidade 4


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Todos aqueles que eu poderia ter ajudado

Ajudado

Salvado

Mas raciocinem

Estamos na terra

Não tem remédio


unidade 5


  1. Olhando fixamente as pessoas a sua volta.


  1. HOMEM- Vão-se embora e amem-se

Lambam-se uns aos outros

Voltem aos vossos bacanais

Mas por favor deixem-me em paz


unidade 6


  1. Tempo.


unidade 7


  1. HOMEM- Tudo isto é uma grande merda

Nem sequer um cão verdadeiro

o fim está no começo e No entanto continua-se

Eu poderia talvez continuar a minha estória Acabá-la e começar outra

Talvez atirar-me ao chão

Enterrar minhas unhas nas ranhuras e arrastar-me com meus pulsos


unidade 8


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Isto será o fim

E eu me pergunto quem poderá tê-lo trazido

Por que demorou tanto


unidade 9


  1. Tentando levantar-se.


  1. HOMEM- Eu estou aqui neste refúgio só contra o silêncio e a inércia

Se eu puder calar-me e ficar imóvel será coisa arrumada

Chamaria pelo meu pai e pelo meu filho

Chamaria 03 vezes para o caso deles não terem ouvido nem na 1ª nem na 2ª


unidade 10


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Passos

Ratos

Olhos

o suspiro que se retém

Depois falar depressa

Não parar de falar

Falar como a criança Que se multiplica em 3, 4 para estar acompanhada

E falar em conjunto Na noite Na madrugada morta

E como grãos 1 a 1 soma-se e espera-se

para que toda a vida nos faça uma vida

Então que isto acabe

Que isto rebente com o resto No fim com as sombras Com os murmúrios e com todo o mal


unidade 11


  1. Tempo.


  1. HOMEM- Para acabar apenas uma coisa

Uma última graça

Compete-me representar


unidade 12


  1. Posiciona-se.


  1. HOMEM- Velho fim de partida perdida

Deitar fora

Tirar

Tornar a repor

Tu chamavas o tempo

Tu reclamavas a noite

Ela veio

Ela desceu

HEI-LA

E depois

Momentos nulos

Sempre nulos

Mas se querem fazer a conta

A conta ai está

E a estória acaba


cena oitava

unidade 1


  1. Levanta-se lentamente e com muito esforço em direção a garrafa presa por tubos a sua cabeça.


  1. HOMEM- Se ele poderia ter o filho com ele

Era o momento que eu esperava

Não quer abandoná-lo

Quer que ele cresça enquanto o senhor vai minguando

Ele só conhece a morte o frio e fome nos seus extremos

Mas o senhor

o senhor deve saber o que é a terra presentemente

Coloquei-o perante suas responsabilidades


cena nona

unidade 1


  1. A dor retorna com intensidade cruel, levando seu corpo ao solo.


  1. HOMEM- Bem cá estou eu

E para acabar

Deitar fora

Arremessar distante

Visto que isto é assim

Não falemos mais nisto

Não falemos mais


unidade 2


  1. Agarra decididamente o trapo.


  1. HOMEM- Velho trapo

Tu ficas comigo


unidade 3


  1. Enfia o trapo na boca tentando sufocar-se.


  1. Black’out. A música invade o espaço. Tempo. A música baixa gradativamente até desaparecer. Silêncio.


CENA décima

unidade 1


  1. Começa-se ouvir ao fundo uma pesada respiração. Na escuridão do silêncio ouve-se a voz do enfermeiro.


  1. Enfermeiro- Ah a juventude

com seus músculos rijos

com suas mente embrulhada

que grita por todos os cantos suas inquietações precisas

que sabe o valor da sua vida oprimida

que só viveu até o presente

a liberdade plena da vida

herança recém perdida na infância preciosa

lúdica

liberta

juventude maioritariamente absoluta

ah a juventude

que foge de seus pais aflitos

que faz o seu pão no mercado negro do ócio

que cresce e conhece o patrão da vida eterna

que bate cartão

e esquece o passado ainda tão presente em seu coração infantil

que envelhece na amargura da sua vida forçada

forjada

e que num futuro próximo

ainda não velha

reclama em frente a TV

da vida

do nada

do tudo

e envelhece

mas nunca deixa de reclamar

há que deixar bem claro isso

e assim molda sua poltrona

com suas amarguras futuras.


CENA décima primeira

unidade 1


  1. A música e a luz voltam gradativamente preenchendo todo o vazio do silêncio. O homem lentamente senta-se, abre seus olhos que até o momento estavam fechados, mira seu olhar nos olhos ao seu redor, assustado começa a chorar suas tristezas terrenas, até seu choro torna-se compulsivamente pesado.


unidade 2


  1. enfermeiro levanta-se do seu lugar e caminha em direção do homem. O homem assusta-se aumentando seu choro. O Enfermeiro aproxima-se do homem, e fraternalmente pousa a cabeça do homem sobre seu peito tentando acalmá-lo. Fixa-se seu olhar em todos os presentes.


unidade 3


  1. Enfermeiro (energicamente) - Façam o favor de se levantar, tirar as batas, pousar as máscaras e sair.


CENA décima segunda

unidade 1


  1. som alegre e festivo de uma canção popular invade a cena.


  1. público gradativamente abandona o espaço.





the end

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