Fim de Partida
(A partir de End Game, peça de Samuel Beckett)
Personagens O Enfermeiro
O homem
peixinho dourado
Cenário Uma Sala de Convívio, qualquer
Uma sala de Espera, vazia
Uma sala de Troca de roupa, negra
Uma sala UTI (unidade de tratamento intensivo), com cadeiras, tubos e garrafas penduradas pelo ar
Figurino Batas descartáveis de cirurgia
REGISTRO INTERPRETATIVO HIPERNATURALISTA (ENERGIA BUTOH)
ESTÉTICA EXPRESSIONISTA
Linguagem SIMBÓLICA
Iluminação Sala Convívio Branca
Sala de Espera Branca Contra luz
Sala de Troca de roupa Azul
Sala UTI Vermelha e foco Branco
Sonoplastia Música instrumental espacial
Tema O Vazio da existência Humana
CENA PRIMEIRA
unidade 1
O público aguarda o início da representação numa sala CONTÍGUA. O ticket de entrada é uma senha numerada.
CENA SEGUNDA
unidade 1
O público é encaminhado para uma segunda pequena sala totalmente vazia. Aguarda por mais alguns instantes. O espaço é preenchido de luz vermelha. Um homem vestido somente com uma roupa descartável de sala de cirurgia invade o espaço. Carrega a tiracolo um calendário e uma caneta pendurada no pescoço. Tem nos olhos olheiras profundas e vermelhas. Examina seu calendário e chama um número.
Enfermeiro- NÚMERO 13, NÚMERO 13 POR FAVOR.
Uma pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.
unidade 2
Enfermeiro- O SEU TICKET POR FAVOR.
CENA TERCEIRA
unidade 1
A pessoa entrega seu ticket à ele. Os dois desaparecem no interior da terceira sala. Um som ensurdecer se faz presente. A terceira sala é escura e longa, tem uma luz azulada preenchendo seu vazio, uma das paredes é lisa e uma outra repleta de aventais descartáveis cirúrgicos e máscaras também descartáveis. O enfermeiro pega num avental e numa máscara. Tem uma postura mecânica, indiferente.
unidade 2
Enfermeiro (mecanicamente dando instruções) - ESTIQUE OS BRAÇOS...PARA FRENTE...PARA DENTRO DA BATA...VIRE-SE ...PONHA A MÁSCARA... ENCOSTE-SE...NA PAREDE...AO FUNDO POR FAVOR...
unidade 3
Ele encosta-se junto dessa pessoa e segreda alguma coisa no seu ouvido esquerdo. São fragmentos de um poema.
Enfermeiro (sussurra amavelmente) –
NÓS QUE HABITAMOS ESTE MUNDO
QUE SABEMOS QUE A INTERNET LIGA O MUNDO
QUE SABEMOS DA VIDA PRIVADA DE CELEBRIDADES
QUE SABEMOS QUE NEGROS MORREM EM ÁFRICA AOS MILHARES COM FOME
NAS GUERRAS DOS HOMENS QUE ALIMENTAM SEUS BANQUETES COM O SANGUE DOS QUE PERDERAM SUAS IDENTIDADES
SABEMOS TAMBÉM QUE AQUI OUTROS TANTOS SOFREM OUTROS MALES
NÓS QUE SABEMOS SOBRE A LEI QUÂNTICA
QUE DUVIDAMOS DOS OLHOS AZUIS DE CRISTO
SERÁ QUE SOFREMOS TANTO?
DIGO, TANTO QUANTO PODEM SOFRER OUTROS semelhantes SERES
ABANDONADOS PELA SORTE DE SEUS DESTINOS TORTOS
CONTROLADOS POR MENTES QUE NÃO SE ENGANAM
QUE CONTROLAM A NÓS TAMBÉM
MENTES DESCONHECIDAS É VERDADE
QUE CONSTRÓEM COMUNIDADES DE SERES LARGADOS NOS SEUS CANTOS
E NÓS
NÓS MESMOS, LARGADOS NUM CANTO
GEMENDO NOSSA DOR SOLITÁRIA.
unidade 4
Abandona a pessoa e dirige-se para a segunda sala. Examina seu calendário e chama outro número.
Enfermeiro- NÚMERO 4, NÚMERO 4 POR FAVOR.
Outra pessoa do público com o respectivo número caminha até ele.
Enfermeiro- SEU TICKET POR FAVOR.
Vão os dois para dentro da terceira sala e o ritual repete-se. O enfermeiro depois de vestir cada pessoa segreda no seu ouvido esquerda um fragmento de um poema. Entra na sala entra a última pessoa. O enfermeiro veste-a, dirige-se para a extremidade da pequena sala, e abre uma terceira porta.
CENA QUARTA
unidade 1
Enfermeiro- FAÇAM O FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, FAVOR DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, DE ENTRAR E OCUPAREM O LUGAR COM VOSSO NÚMERO, E OCUPAREM O LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, LUGAR COM O VOSSO NÚMERO, COM VOSSO NÚMERO, VOSSO NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO, NÚMERO...
O espaço é uma sala margeada por cadeiras cobertas com panos brancos e sujos de sangue, com garrafas penduradas pelo espaço, cheias de líquidos coloridos, com tubos transparentes que rasgam o espaço vazio a caminhão do solo. O chão é também forrado com panos brancos sujos de sangue. De frente para as cadeiras um televisor ligado a uma camera de filmar que projeta no ecrã televisivo imagens do público presente. O cheiro a éter impregna o espaço.
unidade 2
enfermeiro invade a cena, agacha-se e dobra um pano que tapa alguma coisa no chão. Debaixo do pano um homem nu ligado aos tubos transparentes pendurados em garrafas pelo espaço. Seu corpo está coberto por sangue e hematomas. Dos seus olhos, narinas, ouvidos, punhos e pulsos escorre sangue. O enfermeiro coloca o pano dobrada embaixo da cabeça do homem nu e vai sentar-se numa cadeira ao seu lado. Pega a camera sobre a TV e começa registrar as imagens da representação. O homem nu tem sobre a face um velho trapo encardido que esconde toda a sua cara. Gradativamente ele vai-se destapando, retirando lentamente o trapo que esconde seu rosto. Seus movimentos são lentos e inergéticos. Sua respiração ofegante e pesada. A música baixa ao fundo gradativamente.
cena quinta
unidade 1
HOMEM (retirando o trapo e olhando a sua volta lenta e gradativamente) - É o fim
Isto vai acabar
Os grãos juntam-se grãos Um a um
E um dia de repente é um monte
Um montinho
o monte possível
unidade 2
HOMEM (olhando para o trapo já junto a sua face) - Velho trapo haverá miséria maior que a minha
Talvez tenha havido Sem dúvida noutros tempos
E hoje Será que sofro tanto como sofrem meus semelhantes seres
Isto quer dizer que nossos sentimentos equivalem-se
Sem dúvida que sim
Tudo é tão absoluto
Quanto maior se é mais cheio se está
Ou quanto mais vazio
unidade 3
Seu corpo é rasgado por uma dor física qualquer.
HOMEM- Basta
Relaxa ofegantemente tentando aliviar a dor.
unidade 4
HOMEM- Já são horas que isto acabe e no entanto hesito em chegar ao fim
Em todo o caso ainda vacilo em acabar
Que terei eu hoje
Seria melhor que eu voltasse a dormir
Fora daqui é a morte
unidade 5
Novamente uma pequena dor invade seu ser.
HOMEM- Malditos progenitores
Ah os velhos Só pensam em comer Não pensam noutra coisa
Cada um com a sua especialidade
unidade 6
A dor intensifica-se.
HOMEM- Isto não vai depressa
Mas é sempre assim no final do dia
Um final de dia como todos os outros
unidade 7
Progressivamente a dor aumenta até chegar ao insuportável.
HOMEM- Isto progride
unidade 8
Tentando relaxar.
HOMEM- ah se eu dormisse
Se eu dormisse talvez eu amasse
Talvez eu e alguém iríamos pelos bosques
Veríamos o céu e a terra
Correríamos atrás dos nossos sonhos perdidos
Mergulharíamos no riacho doce dos nossos desejos esquecidos
E eu fugiria
unidade 9
Volta seu corpo para a posição inicial tentando adormecer.
Violentamente uma dor aguda invade sua cabeça, como querendo estourá-la.
HOMEM- Há uma gota de água na minha cabeça
Há um coração de sangue vermelho na minha cabeça cega
Ah se eu dormisse
Talvez sonhasse e nossos corações seriam tranquilos
Seria um sonho
unidade 10
Relaxa por completo na sua dor e pouco a pouco volta a sua normalidade.
HOMEM- Mas quando é que isto acaba
Do que será que ainda se pode falar
Não há pressa
unidade 11
Lentamente começa a sentar-se.
HOMEM- A minha ira recai
unidade 12
Olhando a sua volta com determinação
HOMEM- Tenho vontade de fazer xixi
Tenho vontade de fazer xixi
tenho vontade de fazer xixi...
unidade 13
Procura desesperadamente seu pênis. Encontra-o.
HOMEM (angustiado) - Mas também não tenho pressa
unidade 14
Pausa
HOMEM- Pela manhã nos dão estimulantes Pela tarde estupefacientes
Ou ao contrário Tanto faz
unidade 15
Alguma coisa fora desse tempo chama a sua atenção e ele tenta ouvir o mais além.
HOMEM (colocando as mão no ouvido esquerdo) - Mais além está o outro inferno
Ouçam
unidade 16
Olhando para trás fixando-se por algum tempo em algo e retornando a olhar pra frente.
HOMEM- Ouviram
unidade 17
Tempo.
HOMEM- Tudo isto é oco
unidade 18
A dor ausente retorna para marcar sua presença.
HOMEM- Basta
unidade 19
Olhando a sua volta angustiado.
HOMEM- Isto é duma tristeza
Nada mexe
É tudo tão cinzento
Preto claro
Todo o universo
Nunca se sabe
unidade 20
Tentando recuperar-se lentamente.
HOMEM- Esta noite vi meu peito aberto sangrando
Tinha uma ferida muito grande
Parecia uma coisa viva
Nessas noites quando meu peito aberto vermelho Pulsa meu coração infantil
Meus olhos parecem ver além das estrelas
Não sei
unidade 21
Começa lentamente a tentar ficar em pé. Não consegue.
HOMEM- Não estaríamos na hora de significar alguma coisa
unidade 22
Tenta novamente e com muito esforço assume uma posição quase ereta.
HOMEM- Se uma inteligência regressasse a terra
Não estaria tentada a formular idéias a custa de nos observar
unidade 23
Olhando a sua volta, como esperando respostas.
HOMEM- Até mesmo nós
Nós por momentos
unidade 24
Olha para uma garrafa que está a sua frente e tenta apanhá-la. Esforça-se exaustivamente. Não consegue. Cai.
HOMEM- E pensar que tudo isto talvez não tenha servido para nada
unidade 25
Tempo.
HOMEM- Isto demora
Alguma coisa segue seu curso
unidade 26
Ele volta a se deitar.
HOMEM- Partirei só a caminho do sul a procura do mar
Construirei uma jangada
As corrente marítimas conduzir-me-ão longe
Muito longe
Até outros mamíferos
Partirei só
E vocês um dia ficarão cegos como eu
Ficarão sentados em algum canto escuro na plenitude do vácuo
Para sempre na sombra
Como eu
Um dia dirão
Estamos cansados
Vamos nos sentar um bocadinho
E sentarão
E depois dirão
Temos fome
Vamos nos levantar e fazer nosso comer
Mas não se levantarão
E dirão
Fizemos mal em nos sentarmos
Mas visto que sentamos Continuaremos sentados mais um pouco
Levantaremos depois e faremos o nosso comer
Mas vocês não se levantarão E nem farão o vosso comer
Olharão por um instante a parede branca E dirão:
Vamos fechar os olhos
Talvez dormir um pouco
e Depois pensam vocês
tudo ficará melhor
E fecharão os olhos
E quando voltarem a abri-los já não haverá parede branca
Apenas o vácuo da incerteza vazia
o infinito os rodeará E nem todos os mortos de todos os tempos Bastarão para preencher o vazio das vossas certezas
E como uma semente no deserto árido Estarão vocês sós
Sozinhos
Um dia saberão o que é
Saberão como eu
Exceto que vocês não terão ninguém
Porque não tiveram piedade de ninguém
à parte que não haverá mais ninguém por quem sentir piedade
unidade 27
Tempo.
HOMEM- Só temos uma solução
Aniquilarmo-nos
Que tal
Gosto das velhas perguntas
Das velhas respostas que lançam novas perguntas
Não há nada melhor
unidade 28
A dor volta avassaladoramente profunda. seus músculos ENRIJECEM. Sua respiração comprime-se
HOMEM- Isto progride
unidade 29
Tempo.
HOMEM- Sigo meu curso
unidade 30
Tempo. Senta-se.
HOMEM- Ah as pessoas
Tem-se que lhes explicar tudo
Bom vamos lá
eu conheci um louco que julgava que o fim do mundo tinha Chegado
Ele pintava
Eu gostava dele
Ia visitá-lo ao hospício
Pegava-lhe na mão e arrastava-o até a janela
Olha ali, dizia eu
Os girassóis cortando o espaço Colorindo o céu azul
E ali as mulheres alegres cantando a beira do riacho das pedras pontiagudas
Ele soltava-se da minha mão E retornava ao seu canto
Ele só havia visto cinzas e devastação
unidade 31
Tempo.
HOMEM- Parece-me que esses casos não são assim tão raros
unidade 32
Tempo.
HOMEM- Eu gostava dele
Ele era pintor
Pintava
unidade 33
Tempo.
HOMEM- Não vos parece que isto já durou o bastante
unidade 34
Tenta levantar e acaba por ficar de joelhos.
HOMEM- Silêncio por favor
cena sexta
unidade 1
Silêncio. o homem levanta-se e seu registro interpretativo muda por completo, seu corpo ereto ocupa todo o espaço com seus músculos rijos, sua voz que aparentava a fragilidade do fim, das forças que acabam, preenche o vazio sonoro do espaço com força e determinação. tem um tom irônico no falar.
HOMEM- Onde estava eu
Ah sim
o homem aproximou-se lentamente
Arrastando-se de barriga para baixo
De uma palidez e uma magreza admiráveis
Um longo silêncio se fez ouvir
Eu enchia calmamente o meu cachimbo de madrepérola
Acendia-o
Soltava uma baforada na sua cara
Vamos dizia eu
Sou todo ouvidos
Fazia nesse dia recordo-me perfeitamente Um frio extremamente vivo
Zero no termómetro
Mas como estávamos na véspera de natal Isso não tinha nada de extraordinário
Um clima de estação como costuma ser
Vamos dizia eu
Que mau tempo trouxe-te aqui
Ele levantou a cara completamente suja de porcarias
Borrada com suas lágrimas paternas
Olhou-me nos olhos
Não, não me olhe
Ele baixou a cabeça Murmurando desculpas sem dúvida
Diga logo
Eu estou muito ocupado com os preparativos da festa como deve calcular
Mas qual é o objetivo dessa invasão
Fazia um dia maravilhosamente esplendido
sol gélido dos ventos do norte queimavam nossos lábios serenos
Vamos, vamos diga alguma coisa
Foi então que ele tomou a sua decisão
É o meu filho disse ele
Como se o sexo tivesse importância
De onde viria ele
Meio dia mais ou menos a cavalo disse ele
Não me venha dizer que ainda há população por aí
Era o que faltava
Expliquei-lhe que não havia almas vivas nos próximos 2 milhões de Kms
Informei-lhe sobre a extinção total de toda a espécie animal sobre a face da terra
Nem um gato revirando restos de comida
Bom, então quer fazer-me acreditar que deixou seu menino lá
Completamente só
E ainda por cima vivo
Fazia nesse dia recordo-me um vento uivante que gelava nossas espinhas
Vamos, vamos que quer de MIM afinal
Um pão disse ele
Um pão para o meu menino
Um pedinte como sempre
Pão
Mas eu não tenho pão
Então trigo
Trigo realmente tenho em meus celeiros
Mas reflita
Eu dou-te o trigo
Um K
Um K e 1/2
Leva-o ao teu filho e prepara~lhe se ele ainda estiver vivo
Uma boa papa
Uma boa papa e 1/2
Ele retoma suas forças
Talvez
E depois
Zanguei-me
Raciocina Estamos na terra o que espera você
Que a terra renasça em primavera
Que os mares e os rios voltem a encherem-se de peixes
Que ainda exista no céu um lugar para os imbecis
Para o senhor
Pouco a pouco acalmei-me
o suficiente para lhe perguntar quanto tempo demorou para chegar aqui
03 dias completos
em que estado tinha deixado a criança
mergulhado no sono disse ele
mas que espécie de sono
um sono infantil
infantil como
como os anjos que disfarçam a imortalidade em sorrisos com asas sem fim
enfim ele tinha me comovido
propus-lhe que trabalhasse para MIM
depois imaginava eu que ele não ficaria por muito tempo
aqui se tiver cuidado pode-se morrer uma bela morte
naturalmente confortável
então disse ele
a criança, posso trazer a criança
se ainda ela estiver viva é claro
era o momento que eu esperava
se eu posso recolher a criança
revejo-o de joelhos
as mãos no chão
fixava-me com seus olhos de louco apesar de ter-lhe avisado para não mirar meus olhos
unidade 2
(deixando a narrativa de lado, voltando gradativamente ao seu registro original)
chega por hoje
não terei por muito mais tempo esta estória
a não ser que acrescente personagens
mas onde encontrá-los
ai meu deus tende piedade de mim
unidade 3
Ajoelha-se em posição de oração.
HOMEM- agora rezemos a deus
silêncio (mirando a sua volta) um pouco de compostura senão não chegamos a nada (olhando para os céus) Pai nosso....amém
unidade 4
Lentamente desmancha a posição de oração.
HOMEM- Fim da palhaçada
cena sétima
unidade 1
Deita-se relaxadamente.
HOMEM- Sinto-me um pouco vazio
o esforço criativo prolongado suga-me todas as forças
Se eu pudesse arrastar-me a beira do mar Faria um travesseiro de areia
e durante a noite No meio de sonhos selvagens a maré viria-me acordar
eu acenaria para os navegadores perdidos
E depois nadaria até terras distantes
Ah se pudesse me arrastar
unidade 2
Chora compulsivamente.
HOMEM- que é que eu vou fazer
que é que eu vou fazer
É isso
Agora eu represento
unidade 3
Senta-se.
HOMEM- Chora-se para nada
Para não se rir
E pouco a pouco uma verdadeira tristeza nos ganha
unidade 4
Tempo.
HOMEM- Todos aqueles que eu poderia ter ajudado
Ajudado
Salvado
Mas raciocinem
Estamos na terra
Não tem remédio
unidade 5
Olhando fixamente as pessoas a sua volta.
HOMEM- Vão-se embora e amem-se
Lambam-se uns aos outros
Voltem aos vossos bacanais
Mas por favor deixem-me em paz
unidade 6
Tempo.
unidade 7
HOMEM- Tudo isto é uma grande merda
Nem sequer um cão verdadeiro
o fim está no começo e No entanto continua-se
Eu poderia talvez continuar a minha estória Acabá-la e começar outra
Talvez atirar-me ao chão
Enterrar minhas unhas nas ranhuras e arrastar-me com meus pulsos
unidade 8
Tempo.
HOMEM- Isto será o fim
E eu me pergunto quem poderá tê-lo trazido
Por que demorou tanto
unidade 9
Tentando levantar-se.
HOMEM- Eu estou aqui neste refúgio só contra o silêncio e a inércia
Se eu puder calar-me e ficar imóvel será coisa arrumada
Chamaria pelo meu pai e pelo meu filho
Chamaria 03 vezes para o caso deles não terem ouvido nem na 1ª nem na 2ª
unidade 10
Tempo.
HOMEM- Passos
Ratos
Olhos
o suspiro que se retém
Depois falar depressa
Não parar de falar
Falar como a criança Que se multiplica em 3, 4 para estar acompanhada
E falar em conjunto Na noite Na madrugada morta
E como grãos 1 a 1 soma-se e espera-se
para que toda a vida nos faça uma vida
Então que isto acabe
Que isto rebente com o resto No fim com as sombras Com os murmúrios e com todo o mal
unidade 11
Tempo.
HOMEM- Para acabar apenas uma coisa
Uma última graça
Compete-me representar
unidade 12
Posiciona-se.
HOMEM- Velho fim de partida perdida
Deitar fora
Tirar
Tornar a repor
Tu chamavas o tempo
Tu reclamavas a noite
Ela veio
Ela desceu
HEI-LA
E depois
Momentos nulos
Sempre nulos
Mas se querem fazer a conta
A conta ai está
E a estória acaba
cena oitava
unidade 1
Levanta-se lentamente e com muito esforço em direção a garrafa presa por tubos a sua cabeça.
HOMEM- Se ele poderia ter o filho com ele
Era o momento que eu esperava
Não quer abandoná-lo
Quer que ele cresça enquanto o senhor vai minguando
Ele só conhece a morte o frio e fome nos seus extremos
Mas o senhor
o senhor deve saber o que é a terra presentemente
Coloquei-o perante suas responsabilidades
cena nona
unidade 1
A dor retorna com intensidade cruel, levando seu corpo ao solo.
HOMEM- Bem cá estou eu
E para acabar
Deitar fora
Arremessar distante
Visto que isto é assim
Não falemos mais nisto
Não falemos mais
unidade 2
Agarra decididamente o trapo.
HOMEM- Velho trapo
Tu ficas comigo
unidade 3
Enfia o trapo na boca tentando sufocar-se.
Black’out. A música invade o espaço. Tempo. A música baixa gradativamente até desaparecer. Silêncio.
CENA décima
unidade 1
Começa-se ouvir ao fundo uma pesada respiração. Na escuridão do silêncio ouve-se a voz do enfermeiro.
Enfermeiro- Ah a juventude
com seus músculos rijos
com suas mente embrulhada
que grita por todos os cantos suas inquietações precisas
que sabe o valor da sua vida oprimida
que só viveu até o presente
a liberdade plena da vida
herança recém perdida na infância preciosa
lúdica
liberta
juventude maioritariamente absoluta
ah a juventude
que foge de seus pais aflitos
que faz o seu pão no mercado negro do ócio
que cresce e conhece o patrão da vida eterna
que bate cartão
e esquece o passado ainda tão presente em seu coração infantil
que envelhece na amargura da sua vida forçada
forjada
e que num futuro próximo
ainda não velha
reclama em frente a TV
da vida
do nada
do tudo
e envelhece
mas nunca deixa de reclamar
há que deixar bem claro isso
e assim molda sua poltrona
com suas amarguras futuras.
CENA décima primeira
unidade 1
A música e a luz voltam gradativamente preenchendo todo o vazio do silêncio. O homem lentamente senta-se, abre seus olhos que até o momento estavam fechados, mira seu olhar nos olhos ao seu redor, assustado começa a chorar suas tristezas terrenas, até seu choro torna-se compulsivamente pesado.
unidade 2
enfermeiro levanta-se do seu lugar e caminha em direção do homem. O homem assusta-se aumentando seu choro. O Enfermeiro aproxima-se do homem, e fraternalmente pousa a cabeça do homem sobre seu peito tentando acalmá-lo. Fixa-se seu olhar em todos os presentes.
unidade 3
Enfermeiro (energicamente) - Façam o favor de se levantar, tirar as batas, pousar as máscaras e sair.
CENA décima segunda
unidade 1
som alegre e festivo de uma canção popular invade a cena.
público gradativamente abandona o espaço.
the end
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