Friday, April 6, 2007

Magma da vida




FIM DE PARTIDA

PROCESSO DE CRIAÇÃO




MAGMA (LODO DA VIDA)


O DRAMA (AÇÀO) SURGE ANTES DA DRAMATURGIA, A IMAGEM DE UM HOMEM A BEIRA DA MORTE NUMA SALA HOSPITALAR DE TRATAMENTO INTENSIVO (U.T.I.), ASSISTIDO POR ESPECTADORES/MÉDICOS (RESPONSÁVEIS EM EVITAR QUE ELE DEIXE DE SOFRER FÍSICA E EXISTENCIALMENTE), FOI O PONTO DE PARTIDA PARA A CRIAÇÃO DA PEÇA FIM DE PARTIDA.

PARA QUE O DRAMA (AÇÃO) PUDESSE LIBERTAR SEU PESO SIGNIFICATIVO, ATRAVESSAR O ESPAÇO E COMUNICAR COM O ESPECTADOR DISTRAÍDO (MOSTRANDO O PROFUNDO SIGNIFICADO DO SEU DRAMA), ERA NECESSÁRIO ALGUM ELEMENTO LITERÁRIO DRAMÁTICO, QUE PUDESSE FUNDIR-SE COM A IMAGEM DO TEXTO CÊNICO DO PEQUENO DRAMA, E A PARTIR DAÍ CONSTRUIR-SE-IA UMA DRAMATURGIA ORIGINAL PARA ESSA HIPOTÉTICA CRIAÇÃO.

REMEXENDO A MEMÓRIA, DOIS AUTORES ERAM ALVO DE INTERESSE: FERNANDO ARRABAL E SAMUEL BECKETT. AMBOS TÊM UMA MANEIRA LÚDICA EM ESTRUTURAR SUAS CRIAÇÕES, SEUS MUNDOS ONÍRICOS POSSUEM UM CERTO CHAMAMENTO À IMORTALIDADE.

TO PONTO DE PARTIDA

ENTRE MUITAS POSSIBILIDADES, A SORTE ENCARREGOU-SE DA ESCOLHA FINAL: FIM DE PARTIDA DE BECKETT (TRADUZIDO DO ORIGINAL FRANCÊS PARA O CASTELHANO POR ANA MARIA MOIX, MARGINALES, 29 EDIÇÃO 1997, TUSQUETS EDITORES, BARCELONA), MOSTROU-SE DUPLAMENTE PROMISSOR: SE POR UM LADO TEM UMA FÁBULA DE ENCLAUSURAMENTO, DE NECESSIDADE DO OUTRO, DO VAZIO EXISTENCIAL; POR OUTRO LADO TEM UMA POÉTICA LITERÁRIA LIBERTADORA, PROFUNDA, SIMPLES E BELA.

A IMOBILIDADE EM FIM DE PARTIDA INVADE A CENA ASSIM QUE A PEÇA COMEÇA. DOS 04 PERSONAGENS, 03 ESTÃO PARALISADOS E O 4° MOVE-SE COM DIFICULDADE, AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ABERTAMENTE HOSTIS E ESTÃO A UM PASSO DA EXTINÇÃO, HÁ UMA SITUAÇÃO OPRESSIVA DE MÚTUA DEPENDÊNCIA.

O TEMA PRINCIPAL DESSA PEÇA É A IMPOSSIBILIDADE DE ACABAR, PERSONAGENS OU OBJETOS ESTÃO NO FIM OU QUASE NO FIM, OS PERSONAGENS REALIZAM UMA SERIE DE MOVIMENTOS INÚTEIS ENCAMINHADOS PARA UM FIM QUE CONSTANTEMENTE É ADIADO.

DA FÁBULA DE BECKETT O QUE INTERESSAVA ERA O TOM ATMOSFÉRICO DO ESPAÇO FECHADO VAZIO E PESADO, QUE ENQUADRAVA-SE PERFEITAMENTE NO CONTEXTO DO HOMEM A BEIRA DA MORTE, SEM SAÍDA, SEM VONTADE EM DETERMINAR SUA TRAJETÓRIA, AINDA DEPENDENTE DA CORAGEM DO OUTRO. DO PRÓXIMO.

D0 SEU TEXTO LITERÁRIO, DEFINIU-SE SELECIONAR DENTRE A TOTALIDADE DAS FALAS DE TODOS OS SEUS PERSONAGENS, O QUE REALMENTE PARECESSE VITAL PARA O ENTENDIMENTO DO TEMA PROPOSTO CONSTRUÍDO POR BECKETT (NÃO QUE ISSO FOSSE SAGRADO. MAS A PROFUNDIDADE PROPOSTA POR ELE PARA O RECONHECIMENTO DO VAZIO HUMANO, NÃO PODIA SER FACILMENTE IGNORADA), E A PARTIR DESSA ETAPA COMEÇAR-SE-IA A CONSTRUIR A CRIAÇÃO DA DRAMATURGIA DESSE OUTRO FIM DE PARTIDA, JÁ NÃO MAIS DE BECKETT.


T1 TRADUÇÃO CASTELHANO PARA O PORTUGUÊS


TRADUZIR E READEQUAR O TEXTO CASTELHANO AO CONTEXTO TEMPORAL E ESPACIAL PRESENTE, FOI O PRIMEIRO GRANDE DESAFIO. TRABALHO QUE EXIGIU MUITA PACIÊNCIA E ALGUMA DIFICULDADE PARA CONOTAR DETERMINADAS IDÉIAS, MESMO COM A PROXIMIDADE DA LÍNGUA.

PARA FACILITAR O PROCESSO SELETIVO, RESOLVEU-SE APAGAR DO TEXTO ORIGINAL TODAS AS DIDASCÁLIAS, INDICAÇÕES CÊNICAS, RUBRICAS E A IDENTIFICAÇÃO NAS FALAS DOS PERSONAGENS, QUE AGORA ERAM ELEMENTOS DISPENSÁVEIS, NÃO ERAM O ALVO DA SELEÇÃO.

O QUE IMPORTAVA NESSE MOMENTO DO PROCESSO ERA O CONSTRUIR UM LONGO MONÓLOGO SEM DESTINATÁRIO, PLAUSÍVEL DE UMA OUTRA LEITURA, DESLIGADO DA SUA DRAMATURGIA ORIGINAL E QUE FAVORECESSE UMA LIGAÇÃO SIMBIÓTICA E CONCRETA COM O DRAMA(AÇÃO) DO HOMEM A BEIRA DA MORTE NUMA SALA HOSPITA(LAR). A PARTIR DESSE TRABALHO CIRÚRGICO SURGIA A TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS.


T2 CRIAÇÃO/SELEÇÃO LITERÁRIA E DRAMATÚRGICA


COM O TEXTO FILTRADO NA SUA ESTRUTURA DRAMÁTICA ORIGINAL, AGORA COM VARIADAS POSSIBILIDADES DE LEITURA, JÁ SERIA POSSÍVEL ACRESCENTAR-LHE A FÁBULA JÁ ESTRUTURADA DESSE HOMEM A BEIRA DA MORTE E CONSTRUIR-SE UMA NOVA LEITURA PARA UMA NOVA FÁBULA.

LENDO E RELENDO O GRANDE MONÓLOGO, SELECIONOU-SE FALAS QUE TINHAM O PESO JUSTO E QUE POSSIBILITASSEM SEREM MANIPULADAS PARA ALÉM DO SEU CONTEXTO E DOS SEUS PERSONAGENS, GANHANDO AUTONOMIA E NOVOS SIGNIFICADOS QUANDO ENCAIXADAS NA ESTRUTURA DRAMATÚRGICA DO NOVO TEXTO CÊNICO.

ALÉM DA SELEÇÃO DAS FALAS DO TEXTO DE BECKETT, SE ACRESCENTOU A LISTA DAS FALAS DA CONSTRUÇÃO LITERÁRIA, TEXTO ORIGINAL, MATERIAL ESSE, QUE SERVIU COMO ALICERCE PARA A CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA DO DRAMA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE.

DEPOIS DE SELECIONADAS AS FALAS DO TEXTO ORIGINAL E ACRESCENTADAS FALAS E PALAVRAS EXTERIORES A PEÇA DE BECKETT, FORMOU-SE UM LONGO TEXTO LITERÁRIO COM CARACTERÍSTICAS POÉTICAS.

DAS 803 FALAS DOS PERSONAGENS QUE COMPÕEM O TEXTO DE BECKETT. FORAM EXTRAÍDAS 39 FALAS NA ÍNTEGRA OU PARTE DELAS, A ELAS ACRESCENTOU-SE MAIS 10 FALAS EXTERIORES AO TEXTO.

EM 17 DAS 39 FALAS SOMOU-SE OUTROS FRAGMENTOS QUE COMPLEMENTARAM AS FALAS DO TEXTO ORIGINAL, TOTALIZANDO 49 FALAS QUE DAQUI ADIANTE IRÃO SUSTENTAR A CONSTRUÇÃO CRIATIVA DA DRAMATURGIA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE, FINALIZANDO A CRIAÇÃO LITERÁRIA AO FINAL DO PROCESSO, COM 126 TEXTOS CÊNICOS, ALGUNS PERTENCENTES AOS PERSONAGENS, OUTROS INERENTES À ENCENAÇÃO.


T3 PROCESSO DE MONTAGEM

1ª ESTRUTURA DRAMATÚRGICA LITERÁRIA DE O FIM DE PARTIDA


DEPOIS DA SELEÇÃO REALIZADA, AS FALAS FORAM REORDENADAS E REAGRUPADAS EM 53 BLOCOS INDEPENDENTES QUE SERVIRIAM PARA TRAÇAR O 1º ROTEIRO FÍSICO E ESPACIAL DA REPRESENTAÇÃO. A SEGUIR FORAM ACRESCENTADAS AINDA ALGUMAS INDICAÇÕES CÉNICAS E ALGUMAS DIDASCÁLIAS QUE POSSIBILITASSEM ORIENTAR A CRIAÇÃO DO INTERPRETE DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. NESSA ETAPA DO PROCESSO TEMOS UM 1º ESBOÇO DA DRAMATURGIA, QUE DEVE SERVIR COMO REFERENCIAL PARA A CONSTRUÇÃO DA ENCENAÇÃO E DO TRABALHO CRIATIVO DO ATOR.

DURANTE O PROCESSO DE ENSAIOS O TEXTO APRESENTADO COMO REFERÊNCIA COMEÇA A TRANSMUTAR-SE SEGUINDO AS EXIGÊNCIAS QUE A CRIAÇÃO/REPRESENTAÇÃO NECESSITA. NESSA ETAPA NÃO CONTÁVAMOS COM ALGUNS ELEMENTOS ( ILUMINAÇÃO, CENOGRAFIA, SONOPLASTIA, VÍDEO, ESPAÇOS DA REPRESENTAÇÃO) QUE SÓ ENTRARIAM NA ENCENAÇÃO E NA DRAMATURGIA A PARTIR DA ESTRÉIA, TRANSFORMANDO RADICALMENTE A APARÊNCIA DRAMATÚRGICA INICIAL DO ACONTECIMENTO, QUE CONTINUARÁ TRANSMUTANDO-SE ATÉ A DERRADEIRA APRESENTAÇÃO DE O FIM DE PARTIDA, NUNCA SENDO A MESMA COISA A CADA NOVA NECESSIDADE QUE O ACONTECIMENTO APRESENTA.


T4 ESPETÁCULO VERSÃO CÉNICA DE O FIM DE PARTIDA


QUASE NO FINAL DO PROCESSO DE MONTAGEM. SURGIRAM ALGUNS PROBLEMAS RELATIVOS A CONCRETIZAÇÃO DE ALGUMAS IDÉIAS PROPOSTAS PELA ENCENAÇÃO, OUTROS SURGIRIAM JÁ NO DECORRER DAS APRESENTAÇÕES: UNS LOGO NO PRINCÍPIO, OUTROS A MEDIDA QUE O TEMPO AVANÇAVA NO ESPAÇO.

DE CARA, NA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO UM PROBLEMA SE FEZ PRESENTE: COMO CHEGARIA O PÚBLICO ATÉ A SALA DA REPRESENTAÇÃO JÁ VESTIDO? QUEM OS VESTIRIA E AONDE ESSE PROCESSO SE DARIA? E AINDA: ENQUANTO ESSE PROCESSO DECORRIA O QUE SERIA FEITO D0 PÚBLICO QUE AGUARDAVA PARA ENTRAR NA SALA DA REPRESENTAÇÃO?

A SOLUÇÃO IMEDIATA PARA ESSA 1º APRESENTAÇÃO FOI PEGAR UMA PESSOA QUE ESTAVA A MÃO, VESTIR-LHE UMA BATA E UMA MÁSCARA HOSPITALAR E DAR-LHE A FUNÇÃO DE VESTIR O PÚBLICO PRESENTE. JÁ PARA A 2ª APRESENTAÇÃO TENTAR-SE-IA EQUACIONAR ESSE PEQUENO, MAS INCONVENIENTE PROBLEMA.

COMO AS APRESENTAÇÕES DAVAM-SE UMA VEZ A CADA SEMANA. TINHA-SE UM CERTO TEMPO PARA SE PENSAR EM POSSIBILIDADES. A SOLUÇÃO ENCONTRADA FOI CONVIDAR UM OUTRO ATOR E INCUMBIR-LHE DESSA FUNÇÃO, CRIANDO PARA ELE UM PEQUENO ROTEIRO DE MOVIMENTAÇÃO QUE LHE PERMITISSE DAR FLUIDEZ AO PROCESSO DE ENCAMINHAMENTO DO PÚBLICO ATÉ A ÁREA DA REPRESENTAÇÃO.

MAS COMO SERIA UM DESPERDÍCIO UTILIZAR UM ATOR SOMENTE COMO GUIA, IGNORANDO SEU POTENCIAL CRIATIVO E INTERPRETATIVO, CRIOU-SE PARA ELE UM NOVO PERSONAGEM QUE GRADATIVAMENTE FOI-SE INCORPORANDO A FÁBULA DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. PRIMEIRAMENTE UM PERSONAGEM QUE DESEMPENHASSE AS AÇÕES NECESSÁRIAS PARA A REALIZAÇÃO DA FUNÇÃO (CHAMAR O PÚBLICO, VESTI-LO, ENCAMINHÁ-LO A SALA DA REPRESENTAÇÃO E FILMAR O ACONTECIMENTO), QUE MAIS TARDE SERVIRAM DE SUSTENTAÇÃO PARA CRIAR A RELAÇÃO DESSE PERSONAGEM COM O HOMEM A BEIRA DA MORTE. ASSIM NASCIA O ENFERMEIRO; PERSONAGEM NÃO SOMENTE COM A FUNÇÃO DE MOVIMENTAR AS PESSOAS PELOS ESPAÇOS (QUE AGORA JÁ ERAM 04), MAS PRINCIPALMENTE EM CONFLITUALIZAR COM O HOMEM A BEIRA DA MORTE E COM O PÚBLICO; OPRIMI-LOS E ACIMA DE TUDO GARANTIR QUE OS SEUS SOFRIMENTOS NÃO CESSASSEM PELAS SUAS PRÓPRIAS VONTADES. DEU-SE A ESSE PERSONAGEM O PESO NECESSÁRIO PARA QUE A REPRESENTAÇÃO METAMORFOSEASSE O SEU OBJETIVO PRIMEIRO.

FORA ESSE PROBLEMA. QUE ERA O MAIS IMPORTANTE A SER RESOLVIDO, SURGIRAM OUTROS DE ORDEM TÉCNICA, MAS QUE DE ALGUMA MANEIRA INFLUENCIARAM DE MANEIRA POSITIVA O TEOR ARTÍSTICO DA CRIAÇÃO. ENQUANTO PERMANECEMOS COM APRESENTAÇÕES NO MESMO ESPAÇO FÍSICO, AS MODIFICAÇÕES ERAM RELATIVAS AO TEMPO, REGISTRO INTERPRETATIVO E OUTROS CONFRONTOS INERENTES A ENCENAÇÃO, A PARTIR DO MOMENTO QUE A REPRESENTAÇÃO SAIU DESSE ESPAÇO INDO APRESENTAR-SE EM OUTROS LOCAIS, SURGIRAM PROBLEMAS TÉCNICOS LIGADOS ESPECIFICAMENTE A ÁREA DA CENOGRAFIA E IMAGEM. UM DOS OBJETOS DE CENA (UMA LAJE MORTUÁRIA) CRIAVA DIFICULDADES PARA SUA DESLOCAÇÃO, SENDO DEFINITIVAMENTE EXTRAÍDO DA ENCENAÇÃO, PASSANDO O ATOR A FICAR DEITADO DIRETAMENTE NO CHÃO, MUDANDO COMPLETA E RADICALMENTE A SUA CONTRA CENA E SUA RELAÇÃO COM O PÚBLICO E INEVITAVELMENTE REFORÇANDO AINDA MAIS A CONDIÇÃO DO HOMEM A BEIRA DA MORTE. OUTRA RADICAL MUDANÇA OCORREU QUANDO NÃO FOI POSSÍVEL A FIXAÇÃO DA CAMERA DE FILMAR QUE REGISTRAVA E PROJETAVA EM TEMPO REAL A REPRESENTAÇÃO, PASSANDO ESSA, ÀS MÃOS DO ENFERMEIRO, QUE A PARTIR DESSE MOMENTO TAMBÉM TRANSMUTA SUA RELAÇÃO E O SEU CONFRONTO COM O PÚBLICO. ASSIM POUCO A POUCO A REPRESENTAÇÃO COMEÇAVA A GANHAR A SUA FORMA DEFINITIVA.


T5 RECEPÇÃO DO ESPETÁCULO FIM DE PARTIDA


A RECEPÇÃO DO TRABALHO MOSTROU-NOS QUE A REPRESENTAÇÃO ATINGIU SEU OBJETIVO PRIMORDIAL: PRIMEIRO O ENCONTRO PARA LOGO A SEGUIR O CONFRONTO ENTRE NOSSOS IGUAIS, QUE AS VEZES NA BANALIDADE DAS NOSSAS VIDAS DIÁRIAS EVITAMOS FAZER, ANESTESIADOS PELO PESO EXTERNO DO MUNDO QUE AUMENTA AINDA MAIS NOSSO SOFRIMENTO HUMANO, FAZENDO-NOS FORÇOSAMENTE ESQUECER O QUE NÃO PODEMOS ESQUECER NUNCA; POIS ELE, O PESO QUE NOS FADA A TODOS, NÃO SE ESQUECE JAMAIS.

PODEMOS APRESENTAR ALGUMAS REAÇÕES DO PÚBLICO EM RELAÇÃO AO TRABALHO, UMAS COM MAIOR, OUTRAS COM MENOR IMPACTO, MAS TODAS COM PROFUNDAS REFLEXÕES A SEREM CONSIDERADAS.

A REPRESENTAÇÃO LEVAVA O PÚBLICO POR UM ROTEIRO ESPACIAL E SENSORIAL, NOS POSSIBILITANDO, DE ESPAÇO A ESPAÇO OBSERVAR CLARAMENTE AS MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS E EMOCIONAIS DO PÚBLICO PRESENTE.

QUANDO TODO O PÚBLICO ESTAVA REUNIDO NA PRIMEIRA SALA, A ESPERA QUE O ESPETÁCULO COMEÇASSE, A NORMALIDADE SOCIAL REINAVA COM SEU DISTANCIAMENTO TERRITORIAL, A PARTIR DO MOMENTO EM QUE AS PESSOAS ERAM CHAMADAS PARA A SEGUNDA SALA (ONDE AGUARDARIAM SENTADAS A CHAMADA DO ENFERMEIRO), SEU COMPORTAMENTO SOCIAL SOFRE UMA PEQUENA MAS NÍTIDA MUDANÇA, HÁ UMA CERTA CUMPLICIDADE TERRITORIAL QUE ATÉ A POUCO NÃO EXISTIA, O VOLUME VOCAL TENDE A UMA PEQUENA CONTENÇÃO, UMA CERTA EXPECTATIVA RONDA O ESPAÇO. QUANDO O ENFERMEIRO QUASE NU (VESTIDO APENAS COM A BATA CIRÚRGICA TRANSPARENTE) ADENTRA A SALA E CONVOCA UMA DAS PESSOAS PARA ACOMPANHÁ-LO, HÁ DE IMEDIATO DUAS REAÇÕES: A DA PESSOA QUE É CHAMADA E A DAS QUE PERMANECEM A ESPERA. A PARTIR DE AGORA TODAS MUITO CURIOSAS PARA SABER O QUE SE PASSA NA TERCEIRA SALA. A REAÇÃO QUE TEM A PRIMEIRA PESSOA A ENTRAR NA 3ª SALA É ÚNICA, COMO É ÚNICA A DA ÚLTIMA, NOTA-SE COM FREQUÊNCIA UM CERTO DESCONFORTO NESSA PESSOA. QUANDO NA SALA COMEÇAM ADENTRAR OUTROS SERES, O TOM DE CUMPLICIDADE NERVOSA MANIFESTAM-SE, É COMUM NESSA PARTE DO ROTEIRO UMA CERTA DESCONTRAÇÃO COMO QUE PREPARANDO PARA O QUE HÁ DE VIR.

QUANDO O PÚBLICO, DEPOIS DE VESTIDO, É ENCAMINHADO PARA A ÚLTIMA SALA, PERCEBE-SE DURANTE TODA A REPRESENTAÇÃO UM SILÊNCIO MORTAL E UM PESO IMENSURÁVEL NA FACE DE ALGUMAS PESSOAS.

EM GERAL NÃO HÁ PALMAS FINALIZANDO O ACONTECIMENTO; A ESTRUTURA DA DRAMATURGIA CÊNICA E O ESTADO PSICOLÓGICO DO PÚBLICO DÃO POUCAS POSSIBILIDADES PARA A CONCRETIZAÇÃO DESSE RITUAL, QUE TERMINA COM O ENFERMEIRO PEDINDO À TODOS QUE «FAÇAM O FAVOR DE SE LEVANTAR, TIRAR AS BATAS. POSAR AS MÁSCARAS E SAIR».

DURANTE AS VÁRIAS APRESENTAÇÕES O MAIS PERCEPTÍVEL ERA O ALÍVIO DE ALGUMAS PESSOAS AO TERMINO DA REPRESENTAÇÃO. EM ALGUNS CASOS HAVIA PESSOAS QUE CHEGAVAM ATÉ A TERCEIRA SALA E LITERALMENTE FUGIAM, UNS LOGO NA ENTRADA, OUTROS LOGO QUE O ENFERMEIRO VIRAVA AS COSTAS; AINDA ALGUNS FUGIAM QUANDO SENTIAM O FORTE ODOR A ÉTER QUE IMPREGNAVA O ESPAÇO. DE TODAS AS FUGAS, QUE NÃO FORAM ASSIM TÃO POUCAS, APENAS UMA PESSOA NÃO CONSEGUIU SUPORTAR A REPRESENTAÇÃO DEPOIS DE ESTAR NA QUARTA SALA, FUGINDO NO MEIO DA APRESENTAÇÃO.

ESSAS FUGAS JÁ ERAM PREVISTAS PELA ENCENAÇÃO, SABIA-SE QUE MUITOS DOS ELEMENTOS PRESENTES NA CRIAÇÃO LEVARIAM A CONFRONTOS QUE PODERIAM NÃO CHEGAR AO FINAL.

TRANSCREVEMOS ABAIXO ALGUNS FRAGMENTOS DE CRÍTICAS JORNALÍSTICA E ACADÉMICA SOBRE A REPRESENTAÇÃO DE O FIM DE PARTIDA, CRÍTICAS QUE NOS AJUDAM A COMPREENDER O GRAU DA PROFUNDIDADE QUE ATINGIMOS COM A REALIZAÇÃO DO NOSSO SAGRADO TRABALHO, HÁ QUE FICAR CLARO ISSO, NÃO DESPRENDEMOS ENERGIA PARA SAGRAR NOSSO EGOCENTRISMO ARTÍSTICO, O QUE NOS INTERESSA VERDADEIRAMENTE SÃO OS OLHOS NOS OLHOS E A POSSIBILIDADE QUE ESSE ATO REPRESENTA PARA ENTENDERMOS E ANULARMOS O SOFRIMENTO QUE NOS AFLIGE A ALMA.


PARA ACABAR


NAS NOITES CLARAS DA INSÓNIA ADORMECIDA DOS SERES QUE VAGAM NO INFINITO DO COTIDIANO DAS SOCIEDADES TORTAS PELAS MÃOS PESADAS DOS SENHORES FEUDAIS QUE DELIMITAM SEUS TERRITÓRIOS MARCANDO COM NOSSO SANGUE VERMELHO NOSSOS CORAÇÕES CASTRADOS PELAS DEVASTAÇÕES DAS MEMÓRIAS TORTUOSAS VAGAM TAMBÉM MENTES DISPERSAS QUE NAS MANHAS NEBULOSAS COM SEUS GRITOS BABILÓNICOS ACORDAM O DESASSOSSEGO GUARDADO EM NOSSAS ALMAS ESQUECIDAS QUE ABAFAM NOSSOS GRITOS DIÁRIOS FAZENDO-NOS RECUAR CONTRA O MURO E MERGULHAR NA INÉRCIA DAS VONTADES DETERMINADAS PELAS PESADAS MÃOS CARINHOSAS DOS SENHORES SEM ROSTOS COM SORRISOS AMARELOS.


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